Cinema

Cannes: James Gray traça retrato da América, no dia do regresso de Skolimovski

Cannes: James Gray traça retrato da América, no dia do regresso de Skolimovski

Realizador polaco, que se tem dedicado mais à pintura, mostra obra arrojada.

Com a competição a entrar em velocidade de cruzeiro, o Festival de Cannes começa a mostrar alguns dos filmes favoritos ao palmarés final. É seguramente o caso de "Armageddon time", de James Gray, e "EO", de Jerzy Skolimovski.

Depois de "Ad astra" e se não se soubesse nada sobre o novo filme de James Gray que se ia agora ver, o título "Armageddon time" iria seguramente induzir-nos em erro. É que, ao contrário do que possa parecer, não estamos no domínio da ficção científica e de uma alegoria sobre os tempos do fim do mundo.

Pelo contrário, a ação decorre na década de 1980, no bairro nova-iorquino de Queens. É aí que vive a família de classe média que vamos acompanhar, sobretudo o filho mais novo que, ao contrário do irmão, estuda numa escola pública. Como o seu comportamento deixa algo a desejar, a sua vocação artística não é a que a família espera e a amizade com um jovem afro-americano apenas vem "piorar" a situação, é decidido transferi-lo para uma escola privada, para refrear a indisciplina.

Apesar de nomes como os de Anthony Hopkins, Anne Hathaway e Jessica Chastain no elenco, é o jovem Banks Repeta que enche o ecrã de princípio a fim com a sua irreverência, enquanto James Gray dá uma lição de como contar uma história, transportando-nos para uma época, na ressaca da guerra do Vietname, com Ronald Reagan a chegar à Casa Branca e o apelido de Trump a começar a surgir, que é fundadora da América de hoje. Mais um grande filme na já longa carreira de James Gray.

Veterano, no entanto, é Jerzy Skolimovski, que completou 84 anos há dias. O que não o impede de ter trazido a Cannes uma obra desconcertante, irreverente e de grande modernidade. O realizador polaco, que há muito se radicara no Ocidente, vive atualmente na Califórnia, tendo trocado o cinema pela pintura de grandes telas na sua casa-estúdio sobre as águas do Pacífico.

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Num dos seus cada vez mais raros regressos ao cinema, traz à competição de Cannes "EO", que é agora seguramente, ao lado do clássico "Au hasard Balthazar" de Robert Bresson, um dos melhores filmes feitos segundo o ponto de vista de um burro. É que "EO", título que tem a ver precisamente com o zurrar destes animais, centra-se num burro de um circo que, depois de ter sido confiscado pelas autoridades após a proibição de utilização de animais nos espetáculos, tudo faz para reencontrar a dona, com quem tinha um número de palco e com quem mantinha uma relação de grande amizade.

Quase sem diálogos, com a exceção de um episódio onde entra Isabelle Huppert, o filme é um ensaio audiovisual de grande arrojo, que cria uma enorme empatia entre o público e o protagonista e deixou a plateia de Cannes rendida ao novo filme de Skolimovski, que no entanto não se deslocou ao festival. Talvez o júri tenha encontrado já o candidato perfeito ao Prémio de Realização. Mas ainda falta toda uma semana de bom cinema, espera-se, numa Croisette que vai ainda ser o primeiro palco de algumas obras do cinema português.

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