Música

"Esa rumba tan gitana que yo siempre cantaré"

"Esa rumba tan gitana que yo siempre cantaré"

Gipsy Kings deram ontem concerto apoteótico no Coliseu Porto Ageas. Entre outras simpatias, noite incluiu uma homenagem aos Xutos & Pontapés.

A partir das 21 horas, a fila começou a formar-se entre a porta do Coliseu Porto e a Praça dos Poveiros. Aguçado pela curiosidade de tamanha multidão, um traseunte meio despistado perguntou: "Isto é para o Marco Paulo, não é?". "Qual Marco Paulo, qual quê, isto é para os Gipsy Kings", respondeu um homem visivelmente irritado. Ombros encolhidos, o outro lá subiu Passos Manuel a cantarolar "Djobi djoba" em tom provocador.

Na fila, as vestimentas masculinas eram relativamente sóbrias, ainda que se vissem alguns chapéus de cowboy, numa certa confusão etnográfica. No campo feminino o céu era o limite: havia rosas no cabelo, mantons de Manilla, saias com folhos, brincos até aos ombros e uma pose de "fui apanhada completamente desprevenida", ainda que a preparação durasse há dias, talvez semanas. E nem as máscaras podiam com isso.

O Coliseu estava cheio e uma espécie de smile geométrico, em neon, brilhava no palco, quando os 11 Gipsy Kings entraram. Os primeiros aplausos, tímidos, dão-se à chegada de André Reyes, mestre de cerimónias. Ao primeiro "La lo lai lo lai" num refrão estava oficialmente instalada a festa. E depois de tanto esmero, a primeira cortesia da noite foi para elas: "Obrigado a todas as mulheres presentes". Analisadas as letras de Gipsy Kings, todas têm uma mulher, todas têm amor e desamor.

A partir daqui, a fórmula de condução do concerto não tem grandes variações: uma rumba alternada com uma balada como "Quiero saber" ou "Un amor". A primeira grande apoteose chega com "Djobi djoba" e as crianças dos anos 90, todas de braços no ar, entre palmas e floreados. Alguns casais arriscavam golpes de danças de salão entre as filas de cadeiras.

Mas o melhor estava por chegar. Passada a balada correspondente, André Reyes diz "Viva Portugal e vivam os ciganos. Querem bailar?", e entra com "Baila me". Arrefecida a vergonha, vieram todos: ciganos, não ciganos, avós, netos, e o Mundo por um momento ficou em paz, repleto de pessoas dançantes e felizes que repetiam "Esa rumba tan gitana que yo siempre cantaré".

Evidentemente, a força anímica das rumbas é a pior amiga de uma balada. Mas os Gipsy Kings de André Reyes conseguiram articular muito bem essa transição através de solos. Os melhores foram os de Mario Reyes, um guitarrista de uma rapidez impressionante, muito bem acompanhado pelos primos. Outra das estrelas da banda é o percussionista Guilherme Alves, sempre com samba no pé, um tumulto em palco. Quase que dava para sentir pena de uma mulher que, em todas as baladas, fechava os olhos "para absorver melhor a música". Assim podia ser, mas dessa forma perdia o espetáculo.

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Se musicalmente os Gipsy Kings estão muito bem arroupados, já a nível vocal André Reyes é rei e senhor do palco. E apesar das suas tentativas de dar algum protagonismo aos sobrinhos, como aconteceu com os jogos entre público e banda durante "Todos todos", os pirilampos de telemóveis no ar, a sua voz é inequivocamente a melhor.

Nova injeção de adrenalina entra com "Bem bem Maria". Nesse momento, já a mulher dos olhos fechados sacudia os sapatos brancos contra o chão e abanava os braços no ar, como se exorcizasse a tristeza que tinha no olhar. Parecia precisar de o fazer - quem não precisava? Uma espécie de efeito Flautista de Hamelin e os ratos.

Com o compasso bem marcado na mão, André Reyes começou a cantar "A mi manera", numa versão muito lenta, parecida com a de Frank Sinatra. Várias pessoas na plateia choravam quando se chegava a "Dejar y la vive/ A mi manera" até que, como num passe de mágica, a canção inverte para um ritmo de rumba, levando o público a levantar-se e a dançar, ainda com lágrimas nos olhos.

Superado o momento ciclotímico, André Reyes apresentou a banda: Thomas Reyes, Kakou Reyes, Mario Reyes, Tambo Reyes, Patchai Reyes, Joseph Cortas, François Santiago, Danny Avelino e Guilherme Alves.

A surpresa chega com Danny Avelino que, no meio de um medley, chega com o seu baixo à boca de cena e abre ligeiramente o casaco, revelando uma t-shirt dos Xutos & Pontapés e tocando "A minha casinha". O público é transportado à histeria, cantando em uníssono. Seguiu-se um vira que logo se transformou em "Volare".

Feitas as despedidas com "Bamboleo", houve a promessa de regressar em breve, assim como cumprimentos aos primos Maya, na plateia. Mas a saída de cena só podia ser falsa, voltando para um encore de rumbas, como tinha de ser. Passadas as duas horas de concerto, o público saiu desfeito mas feliz. Uma rumba flamenca por dia não sabe o bem que lhe fazia. Hoje a festa segue no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

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