Arquipélago de Escritores

Juntar literatura à beleza impossível dos Açores

Juntar literatura à beleza impossível dos Açores

Angra do Heroísmo acolhe até domingo o Arquipélago de Escritores, festival literário que pretende acrescentar as letras e o pensamento ao catálogo de maravilhas das ilhas atlânticas.

Há um cemitério de navios ao largo de Angra do Heroísmo. Mais de 900 embarcações que ao longo dos séculos ali se afundaram, geralmente vítimas do vento sul, conhecido popularmente como "vento carpinteiro". Mas há também um viveiro de histórias e personagens associado a esses desastres e à vida da cidade que por duas vezes foi proclamada capital portuguesa: durante a Crise de Sucessão de 1580 e no contexto da Guerra Civil Portuguesa (1828-1834). É esse o território do Arquipélago de Escritores, festival que se funda no desejo de cartografar a herança literária dos Açores e de se abrir às vozes continentais e internacionais.

Estendendo-se, pela primeira vez, à Ilha Terceira, depois de três edições em que o programa se concentrou essencialmente em São Miguel, esta expansão é mais um passo no desejo de Nuno Costa Santos, escritor e diretor do certame, de unir as nove ilhas do arquipélago sob o signo da literatura. E de as projetar como "chão de escrita e pensamento", para que esses traços possam complementar e enriquecer a habitual comunicação sobre os Açores, que se resume muitas vezes aos "clichés sobre o mar, as lagoas e as paisagens".

Para defender esse legado, ninguém melhor que os escritores. E neste sábado foi possível percorrer Angra do Heroísmo com guias especiais: três autores açorianos que reclamam a experiência insular como elemento constitutivo da sua obra. Álamo Oliveira (n. 1945), poeta, dramaturgo e romancista, deambulou pelas ruas do bairro do Corpo Santo recuperando a memória de espaços já desaparecidos, como a Galeria Gávea ou o Café Portugália, e lembrando a relação de determinados locais, como a Rua do Faleiro ou o Pátio da Alfândega, com passagens dos seus livros. Urbano Bettencourt (n. 1949), poeta e contista, é natural de Pico mas tem ligação estreita com Angra, onde estudou durante sete anos no seminário. Recordou o "Glacial", suplemento literário publicado com o jornal "A União" entre 1967 e 1973. Sobre o seu editor, Carlos Faria, escreveu Mário Cesariny que "vendia drogas e semeava fantasias".

De outra geração é Joel Neto (n. 1974), cronista e romancista, vencedor do Grande Prémio APE de Literatura Biográfica 2019 com "A vida no campo". Declara-se de uma "geração pós-terramoto" [referência ao sismo dos Açores de 1980, que vitimou dezenas de pessoas e destruiu parcialmente a capital da Terceira]. "Os Açores estão presentes em quase todos os meus livros. E acho que sou escritor porque nasci aqui, longe do outro. Escrever é estender o braço e transcender a solidão e o isolamento", diz Joel Neto, que voltou a habitar na Terceira depois de 20 anos a viver em Lisboa.

"Cidade literária": lapela chique ou possibilidade de futuro

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No final do périplo, onde foram também evocados escritores angrenses de várias épocas, como Emanuel Félix, J.H. Santos Barros ou Marcolino Candeias (autor da extraordinária "Ode a Angra minha cidade em tom de elegia"), houve ainda leituras e um debate acerca do que poderá ser uma "cidade literária". Aludiu-se à circunstância de esse título poder ser um mero berloque, sujeito aos humores de políticos e investidores, que nada deixa na comunidade após a sua realização. Sendo preferível, na opinião dos escritores, que tal designação tenha como base a identidade local, as suas "personagens, lendas e narrativas", e possa estruturar o futuro da cidade.

Joel Neto mostrou-se o mais cético quanto a essa possibilidade de erigir Angra a "cidade literária", notando a falta de livrarias na cidade e uma certa "diluição cultural" e despovoamento após o sismo de 1980. Já Nuno Costa Santos elencou autores notáveis da Terceira como argumento para o epíteto e vê na paciência e perseverança o único caminho: "Vão-se deixando sementes." Como este certame que organiza

O casal americano e a radialista

Já na tarde de sábado, o festival mostrou a sua vocação de abertura a outras paragens, convidando a escritora norte-americana Katherine Vaz (n. 1955) para uma entrevista conduzida por Andreia Fernandes. Também com raízes açorianas, a autora de títulos como "Mariana" (1997) ou "O homem que era feito de rede" (2002) discorreu sobre as origens do seu ofício: "Comecei a escrever porque quando tinha 12 anos me saiu uma frase que não sabia de onde tinha vindo." E diz que foi uma amiga quem melhor a definiu enquanto escritora: "Vives como um soldado e escreves como se estivesses sob o efeito de drogas." Lembrando o seu primeiro romance, "Saudade" (1994), considerou esse sentimento como uma "forma de sabedoria, porque é um modo de lidar com a perda."

No sexta-feira fora o marido de Katherine, o escritor, compositor e ator Christopher Cerf (n. 1941) a ser entrevistado por Hugo Tiago. Autor de várias músicas para "Rua Sésamo", o programa infantil com maior longevidade na história, sendo produzido desde 1969, o norte-americano é também filho do fundador da Random House, uma das mais importantes casas editorais do Mundo, que iniciou atividade em 1927. Cheio de humor e bonomia, Cerf recordou a importância da publicação de "Ulisses", de James Joyce, nos primórdios da Random House; evocou memórias dos seus contactos com escritores como Truman Capote, Ray Bradbury ou Harper Lee; e falou com saudade da sua experiência na "Rua Sésamo", uma série com "significados profundos por baixo de uma superfície tonta."

A noite de sexta-feira terminou com a performance poético-radialista de Matilde Campilho (n. 1982), autora de "Jóquei" (2014). Entre leituras, imagens e improviso, a escritora convocou figuras como Glenn Gould, Pitágoras ou Walter Benjamin para questionar a definição das "histórias" e lançar possibilidades sobre a sua forma de produção e receção.

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