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"No Irão uma mulher sem marido não tem os mesmos direitos"

"No Irão uma mulher sem marido não tem os mesmos direitos"

Realizadores iranianos falam de "O Perdão", sobre o tema da pena de morte

Em competição em Berlim o ano passado, o filme iraniano "O Perdão" é realizado pela dupla constituída por Behtash Sanaeeha e Maryam Moghadam. Esta última, também atriz, interpreta o papel de uma mulher que descobre que o marido, executado há um ano por um homicídio, estava afinal inocente. As autoridades pedem desculpas formais e sugerem uma compensação monetária, mas Mina vai iniciar uma luta contra o sistema, por ela e pela filha, surda-muda. Um dia, um homem bate-lhe à porta, disposto a ajudá-la...

Como é que foi possível fazer um filme sobre o tema da pena de morte no vosso país?

Maryam Moghadam (MM) - Não foi fácil. Há dois tipos de autorizações, uma para filmar, outra para mostrar o filme. Tivemos a autorização para filmar mas não tivemos ainda autorização para o exibir no nosso país. Espero que um dia possa acontecer, porque adorávamos mostrá-lo ao nosso público.

Behtash Sanaeeha (BS) - A autorização para filmar é sempre mais fácil de obter, mas para nós foi muito difícil, demorámos três ou quatro anos para a ter. Agora estamos satisfeitos que o filme esteja pronto. Mas vamos ter de começar toda uma outra luta.

O argumento do filme baseia-se em alguma história verídica?

BS - É a história combinada de muitas pessoas. Não só no Irão como em vários outros países que têm a pena capital. Para escrever o guião fizemos pesquisa durante seis ou sete anos, falámos com várias pessoas que tinham passado pelo mesmo ou parecido. Mas a pessoa que inspirou mais a nossa história foi a mãe da Maryam, que passou por uma situação muito parecida.

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MM - Há diferenças de personalidade entre a Mina e a minha mãe, mas o destino dela, o sofrimento e a luta são as mesmas.

Mina perde o estatuto social que tinha depois de perder o marido...

MM - No Irão, no geral, uma mulher sem um homem não tem a mesma posição que as outras. Uma mulher que não esteja acompanhada pelo marido não tem os mesmos direitos.

Além da tragédia da perda do marido Mina tem de lidar com a filha surda-muda...

MM - Essa é a parte que tem a ver com a vida real. Há muitas pessoas inválidas no Irão. Eu tenho um irmão inválido. Não é algo que seja raro no meu país. Mas há também um lado metafórico. É uma miúda, vai tornar-se uma mulher, e não tem voz. Mas luta e tem esperança no futuro. E também ajuda a forma do filme, o seu minimalismo.

BS - Há muitas partes do filme que são em silêncio. O silêncio tem um significado no filme.

A personagem central está quase sempre encerrada entre quatro muros...

BS - Esta era já a forma do nosso primeiro filme. O nosso gosto no cinema é este. Mas também tem a ver com o conteúdo do filme. Não queríamos que houvesse movimentos desnecessários da câmara nem uma encenação muito complicada, queríamos chegar a uma certa simplicidade.

Quais são as vossas referências a esse respeito?

BS - Focámo-nos muito na composição, baseados em fotografia, pintura, arquitetura, que ambos adoramos. É por isso que pode ver tantas janelas, portas, escadas. Tentámos encontrar-lhes sempre um significado. Como a liberdade, de passar de um lugar para outro. É algo em que pensamos sempre quando estamos a preparar uma rodagem. Mesmo durante a escrita do argumento.

Pode explicar o sentido do título original ao vosso filme, que se pode traduzir por "Balada de uma Vaca Branca"?

MM - No Corão, a Surata da Vaca enumera todas as regras para a Sharia islâmica. Como a retaliação, olho por olho. A vaca branca do título é uma metáfora, ou um símbolo, das vítimas inocentes. Nas cerimónias da nossa religião a vaca é muitas vezes sacrificada. A vaca branca é uma vítima, como o marido da personagem central.

Como é a experiência de trabalhar em conjunto?

MM - Quando temos uma ideia discutimos muito um com o outro. Se os dois gostamos da ideia e se temos a mesma visão sobre o tema, começamos a escrever. Durante a escrita partilhamos a nossa visão e tomamos logo muitas decisões. Quando começamos a filmar, eu estou à frente da câmara e ele está ao comando. E eu confio nele para as decisões que tem de tomar.

BS - É verdade que ela confia em mim. Mas discutimos muito, sobretudo durante o processo de escrita. O importante é termos o mesmo ponto de vista sobre a história, sobre a forma, sobre tudo. É nos detalhes que às vezes temos ideias diferentes. Mas são discussões que fazem com que o guião seja melhor.

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