Cinema

Tony Gatlif: "Também fui um miúdo da rua"

Tony Gatlif: "Também fui um miúdo da rua"

Tony Gatlif fala sobre o seu novo filme, "Tom Medina", já nas salas

Nascido na Argélia, então colónia francesa e de origem cigana, Tony Gatlif é conhecido por obras como "Gadjo Dilo - O Estrangeiro Louco" ou "Exílios", onde aborda temas como a identidade, a dupla cultura, as tradições ciganas. Como na sua obra mais recente que, depois de Cannes, chega às nossas salas. "Tom Medina" retira o título da personagem central do filme, um jovem enviado por um tribunal juvenil em liberdade condicional e que fica sob a alçada de Ulysse, que vive numa quinta, em sintonia com a natureza.

O tema da identidade é uma constante na sua obra.

Para mim, a questão da identidade é essencial. É muito importante que fale da forma como, desde criança, olhei para o mundo. O mundo era hostil para mim. Porque não era o meu mundo. Era nocivo, eu era um inimigo para esse mundo. Eu, a minha família, as minhas origens.

Tony Gatlif não é o seu nome verdadeiro. Vem de onde?

Fazer guerra ao meu destino era qualquer coisa de essencial, não aceitar o que me destinavam. Percebi que era preciso um Mito, não chegava ser alguém. Menti, para fabricar a minha história. Um Mito é um nome. O que escolhi foi o do homem que deu o nome ao mais belo parque de Argel, perto das Belas-Artes. Foi com esse nome que fui para França.

A comunidade onde vive a personagem de Ulysse é baseada na sua própria experiência, em pessoas e lugares que conhece?

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O que vemos no filme é uma pequena comunidade de jovens levados para lá pela polícia e pela justiça porque eram maltratados. Que tinham problemas graves nas suas famílias ou na sociedade. Eu não tive esse problema. Apesar de ter sido também um miúdo da rua, e de ter estado numa comunidade como esta, os jovens com que convivi eram bastante mais violentos que eu. Sempre consegui combater essa violência.

Tem alguma memória especial desse período?

Como precisava de ternura, de ter um irmão, de ter um pai, que não tinha, porque vim para França muito novo, decidi com um amigo, com quem me tinha batido ao chegar ao centro, que íamos ser como irmãos. Antes de começar "Tom Medina" andei à procura dele, porque tínhamos perdido o contacto. Consegui encontrá-lo, mas não me queria ver, porque estava gravemente doente. Acabou por falecer e a família dele convidou-me para o ir enterrar, nos arredores de Paris, um lugar que parecia o terceiro mundo. Os netos disseram-me que ele guardava todos os recortes sobre mim, que tinha num álbum.

Ainda mantém contactos com a sua terra natal, a Argélia?

Não. Mas guardei um grande carinho por esse país, a Argélia. Pelo seu povo, pela sua imagem, pelo magnífico mar que a banha, pelas Belas-Artes, onde me refugiava quando era miúdo. Mas a Argélia de hoje não me interessa.

Porque situou o filme na região de Camargue? No filme fala-se de um lugar com uma energia muito especial.

Creio profundamente em coisas que me escapam e que escapam ao sistema.

No filme é também referida a tourada, um tema que se tem discutido muito no meu país.

Portugal é o único país onde não há touros de morte. No que diz respeito a touradas, é o único país que respeito. As corridas de touros não é um tema que me toque. Não é a minha cultura, é algo que até me revolta. Para evitar filmar a corrida, coloquei no início um toureiro que vê um gato preto e que por superstição decide nunca mais lidar um touro. O cinema não é um brinquedo. O cinema não é para distrair as pessoas, como por exemplo com uma corrida de touros de morte. A morte não deve ser um espetáculo.

Pelo contrário, mostra a comunhão do Tom Medina com o touro, o mundo humano com o mundo animal.

É exatamente isso. Eu sou a personagem do Tom. Eu adoro os animais. Gosto muito da maneira de estar dos animais no mundo. Para filmar os animais que vemos no filme é preciso amá-los. Como também nunca filmo as pessoas de que não gosto.

A forma de vida que mostra no filme é também uma maneira de fugir à poluição que nos rodeia.

Sim, hoje fala-se muito de poluição, mas ela existe desde que nasci. Descobri-a quando mal tinha quatro anos, ainda na Argélia. Havia lixeiras, vinham camiões descarregar o lixo, e nós, os ciganos, a minha família, íamos à procura de ferro. Nunca disse isto a ninguém mas um dia peguei num papel que pus a arder, para fazer arder a borracha à volta de uns fios elétricos para vender e com o vento, o meu braço ficou todo em chamas. Não tinha pegado em papel, mas sim em plástico. É por isso que falo também de poluição no meu filme. Apesar da paisagem natural da Camargue, há muita coisa que não é ecológica.

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