Desportos de Combate

André Fialho, do sonho no futebol ao estrelato no MMA

André Fialho, do sonho no futebol ao estrelato no MMA

André Fialho foi um dos pioneiros de Artes Marciais Mistas (MMA) que elevou o nome do nosso país no mundo dos desportos de combate. Com vários altos e baixos no caminho, acredita que está perto de competir no maior palco mundial, o UFC, e hoje tem um combate importante rumo a esse sonho.

Nem todos os caminhos são uma linha reta, mas é isso que define um atleta: a capacidade de ultrapassar as várias adversidades e de se superar, sendo que muitas vezes o seu maior adversário é ele próprio. André Fialho sabe isto muito bem. Foi dos primeiros lutadores portugueses a competir nas maiores organizações internacionais e alcançou o topo muito cedo. Teve de dar vários passos atrás na carreira para agora, aos 27 anos, estar perto do UFC, a maior liga de Artes Marciais Mistas (MMA) no mundo.

Do sonho em ser jogador de futebol ao MMA

Os desportos de combate entraram cedo na vida de André Fialho, por influência do pai, mas o futuro não passava por ali. "O meu pai ensinou-me boxe desde os três anos, mas nunca levei muito a sério, ele ensinou-me como defesa pessoal. Estudava e levava o futebol mais a sério, até aos 18 anos eu queria ser jogador", revelou, em entrevista ao JN.

Numa viagem com o pai ao Algarve conheceu o MMA e tudo mudou. "Conheci o meu primeiro treinador e fizemos uns treinos lá (Algarve). Ele disse-me que eu tinha imenso jeito e que me deixava continuar a treinar de borla em Lisboa, eu apaixonei-me pelo desporto e comecei a treinar todos os dias, mas ainda continuava no futebol".

Aos 18 anos teve de tomar uma decisão e optar por um dos desportos. Escolheu o boxe porque acreditava que nunca ninguém tinha optado por esse caminho e ele queria ser o primeiro. Estreou-se no boxe amador aos 19 anos pelo Benfica, com o pai como treinador. Em seis lutas, sagrou-se campeão nacional e regional e tinha o sonho de participar nos Jogos Olímpicos, mas depois percebeu que o MMA abria outras portas.

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Começou por competir nas Artes Marciais Mistas em vários eventos nacionais e foi num torneio que deu o salto para o estrelato. "Convidaram-me para um torneio onde podia ganhar um cinto, mas tinha de fazer três lutas na mesma noite. Venci as três por nocaute e foi aí que deixei de ser uma promessa para ser um dos melhores em Portugal. Foi tudo muito rápido, em menos de um ano já tinha seis combates e não tinha perdido", explicou.

Ida para os Estados Unidos e a injustiça no UFC: "Pai, já não volto"

O UFC é o maior palco de MMA a nível mundial, onde todos os atletas sonham competir. A organização promove esporadicamente o The Ultimate Fighter (TUF), um torneio onde vários lutadores se juntam em duas equipas, com dois treinadores (por norma atletas de topo) e competem por uma vaga na instituição. Foi com objetivo de participar nas provas de acesso ao TUF que André Fialho viajou para os Estados Unidos, mas acredita ter sido injustiçado.

A fase de acesso consistia em três partes: uma prova de luta corpo a corpo, outra de boxe e uma entrevista. Apesar de acreditar ter dominado a primeira, que não é a sua especialidade, André não passou à segunda prova. "Eu preenchi o papel e disse que o meu forte era boxe mas eles nem me deram oportunidade de mostrar a minha qualidade, apenas lutei corpo a corpo e achei que dominei. Senti-me injustiçado", revelou.

Depois de um desentendimento com o treinador da altura decidiu que tinha de arranjar uma nova equipa. Saiu de Las Vegas e viajou até à Califórnia para começar a treinar na American Kickboxing Academy (AKA), cujo treinador principal é Javier Méndez. Este ginásio era a casa de alguns dos melhores lutadores da altura, como Daniel Cormier e Khabib Nurmagomedov, Luke Rockhold e Cain Velásquez, e foi a porta para um dos maiores palcos do MMA.

"Cheguei ao AKA a uma terça-feira para treinar, treinei quarta e quinta, e na sexta-feira estava lá o Scott Coker (presidente da liga Bellator). Ele e o Javier são muito amigos, almoçam muitas vezes juntos, e o Javier falou de mim. Disse-lhe que era português, estava invicto e ele foi ver-me a treinar. Gostou de mim e decidiram dar-me um contrato e um visto de trabalho. Liguei para casa e disse 'pai, já não volto'".

Ensinamentos dos melhores do mundo e um estilo de vida de luxo

Fialho era um dos principais parceiros de treino de Daniel Cormier, antigo duplo campeão do UFC e que isso lhe deu muita experiência de combate. Com Khabib e Velásquez aprendeu muitas técnicas que vai "guardar para a vida". "Foi um privilégio treinar com tanto talento e campeões deste nível. Fui para a AKA com 21 anos, era um bebé em maturidade na luta e cresci bastante ao pé deles".

Treinou nesse ginásio durante três anos e, apesar de ter parceiros de qualidade, sentiu que não estava a aprender como queria. "Senti que o método de treino não era como estava habituado, não estava a aprender tanto. Um dia falei com o Luke Rockhold e mudei-me com ele para a Florida para treinar na Sandford MMA. Adorei a maneira como ensinavam e senti-me em casa, identifiquei-me bastante. Agora estou naquilo que considero ser a melhor equipa da atualidade".

Fialho revelou que era muito amigo de Rockhold e que quando se mudou para a Florida viveu com ele na sua penthouse durante dois meses. No entanto, o americano tinha um estilo de vida difícil de acompanhar, visto que "recebeu muito bem por ter sido campeão do mundo", então André optou por arranjar uma casa própria.

Continuaram a treinar juntos, com o português a ser um dos principais parceiros do antigo campeão. "Ajudou-me imenso, levou-me para a arena quando foi defender o título do UFC e foi uma experiência incrível. Cresci como atleta e como pessoa".

Percalços no caminho e a crença no UFC

Fialho começou a competir no Bellator, uma das maiores ligas de MMA, em 2016 e teve um começo de sonho ao vencer as duas primeiras lutas por KO.

Perdeu o terceiro combate na organização. "Treinei mal, estava lesionado, mas achava que era invencível e bastava entrar que ganhava. O meu adversário não bateu o peso, eu podia não lutar e recebia o dinheiro na mesma. Mas quis competir porque era a primeira luta de um português num evento internacional a ser transmitido em direto na televisão portuguesa. Aceitei e perdi em 20 segundos".

Apesar de ter vencido os dois combates seguintes, Fialho decidiu abandonar o Bellator porque não estava contente com a quantidade de lutas que estava a ter, com o contrato e com o facto de competir nos eventos preliminares.

Com a derrota vieram as críticas e Fialho não lidou bem com elas. "Não tinha a mentalidade correta e fiquei ainda pior. Ouvi críticas, imensas, e até lá só tinha pessoas a dar apoio. Quando ganhas só te dão apoio mas ter aqueles críticos foi algo que custou e não lidei bem com isso. Era muito emocional e imaturo, não deixei os problemas de fora e paguei por isso".

Desde dezembro que mudou radicalmente a sua forma de viver, admitindo estar mais focado e dedicado ao desporto. Explicou que está mais consistente no treino, na alimentação e no cuidado com a mente. Esta mudança trouxe duas vitórias nos últimos dois combates, ambos por nocaute na primeira ronda. Na senda vitoriosa, Fialho sonha agora com o UFC.

"Se continuar a fazer o meu trabalho as portas vão-se abrir. Achei que fosse na última luta, mas só tenho de me manter focado que este ano acredito que vou estar no UFC".

A terceira luta em 2021 e a promessa de KO

André Fialho luta esta noite contra Lincoln Henrique, no UAE Warriors 22, em Abu Dhabi. O brasileiro é especialista em luta de chão, o que torna este evento num contraste de estilos, sendo que Fialho tem o boxe como base.

"Agora é mais difícil levar-me para o chão, nunca foi fácil mas antes não tinha a defesa que tenho agora. Estou relaxado, estou rápido e sei que mais cedo ou mais tarde vou ganhar por KO. Quero é divertir-me. A minha preparação tem sido excelente, chego mais cedo e saio mais tarde, é a mentalidade de campeão. Antes de seres campeão tens de te comportar como tal".

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