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Laborinho Lúcio e Daniel Sampaio na comissão que vai investigar abusos na Igreja

Laborinho Lúcio e Daniel Sampaio na comissão que vai investigar abusos na Igreja

O antigo ministro da Justiça e juiz conselheiro jubilado, Laborinho Lúcio, e o psiquiatra e professor catedrático jubilado Daniel Sampaio estão entre os cinco novos nomes indicados esta quinta-feira para a comissão que vai investigar os abusos sexuais de menores na igreja em Portugal e cujo trabalho arranca no início do ano 2022.

Os nomes foram divulgados esta tarde pelo pedopsiquiatra Pedro Strecht, nomeado pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) coordenador da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos de Menores na Igreja, e que foi anunciado na passada terça-feira pelo episcopado português.

Os outros nomes são Ana Nunes de Almeida, socióloga e investigadora no Instituto de Ciências Sociais, coordenadora de um estudo pedido pela Assembleia da República sobre maus tratos a crianças no seio familiar e membro do conselho consultivo do Instituto de Apoio à Criança; Filipa Tavares, assistente social e terapeuta familiar que esteve 25 anos na Casa da Praia, uma IPSS que presta apoio a crianças com problemas emocionais e comportamentais, e a cineasta Catarina Vasconcelos, "uma pessoa exterior à área e com quem contamos para nos confrontar com outras ideias", disse Pedro Strecht, admitindo que a comissão venha a ser alargada a mais pessoas e de outras áreas de formação.

"Ousem falar", apelou o pedopsiquiatra às vítimas de abusos, garantindo-lhes "total anonimato" se o fizerem. "Confiem na vossa voz interior e na utilidade de a partilharem", pediu. Não foi definido um intervalo temporal sobre o qual o estudo irá incidir, já que este dependerá dos relatos que a comissão conseguir reunir.

"Construir um futuro melhor"

Pedro Strecht disse estar consciente de que convencer as vítimas a falar não é um processo imediato. É necessário "um habitualmente longo tempo de espera e conquista de confiança para que estas sintam que a sua palavra é importante", referiu.

"Por isso, apelamos desde já a todas e todos quanto possam ter sido vítimas destes crimes hediondos para que falem e relatem, finalmente e sem medo, o que lhes aconteceu", insistiu o especialista.

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"Não podemos mudar o passado, mas podemos sempre construir um futuro melhor e livre da repetição deste tipo de situação junto dos vossos filhos, netos ou simplesmente de todas as crianças e adolescentes em que certamente podemos rever partes de nós mesmos".

"Equipa de estudos e não de investigação criminal"

O trabalho da comissão arranca em janeiro e vai prolongar-se, pelo menos, até ao final de 2022. Nos primeiros dias do próximo ano, será feita uma conferência de imprensa com a presença de todos os membros da equipa, e onde irão ser pormenorizadas, também, as metodologias a utilizar. No fim de 2022, será apresentado um relatório.

Questionado sobre se pensa envolver a Polícia Judiciária na comissão, Pedro Strecht respondeu que esta é "uma equipa de estudo e não de investigação criminal". No entanto, esclareceu que colaborará com as autoridades se for caso disso, acrescentando que espera que o número de membros da comissão venha a aumentar.

Comissão garante não estar dependente da Igreja

A equipa de Pedro Strecht irá trabalhar num apartamento descaracterizado, em Lisboa, que não tem qualquer ligação à Igreja Católica. No entanto, será esta a financiar as investigações e a prestar auxílio material, situação que o especialista garante não tornar a comissão "dependente".

"Penso que é óbvia a genuína vontade da Igreja, seguindo as orientações do Papa, saber o que aconteceu", referiu o especialista, assegurando não ter problemas em bater com a porta caso venham a existir interferências.

Strecht considerou ter à sua disposição um "orçamento lúcido". Recusou revelar as verbas de que dispõe, referindo apenas que estas "não têm a ver com a grandeza" dos 2,5 milhões de euros canalizados para uma comissão semelhante em França.

José Ornelas, presidente da CEP, garantiu que a comissão terá carta branca para levar a cabo o seu trabalho: "Somos os primeiros a querer lançar luz sobre isto", vincou. O acesso aos arquivos da Igreja Católica também é, por isso, uma possibilidade.

A criação de uma comissão nacional para reforçar o atendimento dos casos de alegados abusos sexuais e o seu acompanhamento a nível civil e canónico foi anunciada em Fátima, no dia 11 de novembro, no final da Assembleia Plenária do episcopado.

A CEP referiu, na ocasião, que a comissão irá "reforçar e alargar o atendimento dos casos [de abusos sexuais] e o respetivo acompanhamento a nível civil e canónico e fazer o estudo em ordem ao apuramento histórico desta grave questão".

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