Opinião

Cem Saramagos

Quando tinha doze anos, Saramago mostrou-me a cegueira branca e eu assustei-me. Para mim, que mal me lembro do mundo antes de 1998, Saramago era o escritor-nobel, catedral da literatura (assim descrito por Bruno Vieira Amaral), alguém muitíssimo vivo, mas já com a marca da incontestabilidade, que tende a cristalizar.

Já lera, mais ou menos em jeito de aproximação, "O ano de 1993", mas nada me preparara para o "Ensaio sobre a cegueira", para aquele "e se" radical de que são feitas as obras de Saramago. Acredito que tais "e ses", centelhas de inspiração (e se todos cegassem, e se a morte fizesse gazeta, e se um revisor acrescentasse a palavra "não"...), tenham sido a pedra de entusiasmo sobre a qual Saramago escrevia com ofício, com trabalho e com paciência. Daí resultaram livros que são passarolas, quer dizer, voos de imaginação, e que continuaram a sê-lo inclusive na ressaca do Nobel, sem cristalizações.

O que mais me espantou, nessa minha leitura aos doze anos, talvez tenha sido a minha parecença, enquanto leitor, com a mulher do médico: ela vê, nós leitores vemos - mas (profundo mas) acontece-nos, em momentos de fraqueza, querer fechar os olhos, porque o que vemos nos parece insuportável. A verdadeira literatura é o insuportável que suportamos. Que queremos, que devemos suportar. O oposto da cegueira. Tudo isto muito longe da piada sabidona, que pelos vistos ainda se diz por aí, que Saramago não sabia pontuar. Mas aos mesmos não ocorre dizer que Picasso não sabia usar o pincel...

Mais tarde, contrariando a vulgata ainda muito portuguesinha de que temos de optar entre a originalidade da voz e a eficácia da narrativa - ou tens a tua mão ou contas a tua história, como se a literatura fosse um binómio que escolhemos de cruz -, pasmei-me como em Saramago nada disso interessa. Voz é história, história é voz. E, num movimento, grandes personagens (as femininas as mais fascinantes), enredos exuberantes, de tão imaginativos. Falta-nos a audácia desta imaginação. Obras nada tíbias, nada fora de um certo universal que dá à literatura a marca da perenidade, embora ninguém saiba como se chega ao futuro.

Esta segunda-feira, nos dez anos do Porto de Encontro - que juntou na Casa da Música os prémios Saramago, Pilar del Río, Ana Celeste Ferreira, Manuela Azevedo, António Durães e a voz de Teresa Salgueiro, bem como, presentes no público, Violante Saramago Matos e Ana Saramago Matos - agradeci a Saramago a cegueira dos meus doze anos.

A iniciativa marcou o começo das comemorações dos cem anos de José Saramago. Felizmente, não há só um Saramago para agradecer e celebrar, há sim tantos quantos os livros e as suas leituras. Tantos quantos os leitores. Cem é muito pouco.

*Escritor

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