Opinião

A bebé patriota

Envolta num pano às costas da mãe, a bebé adormece. A mãe, acreditando num futuro melhor para ela, lança-se às águas do Mediterrâneo para nadar umas boas centenas de metros e arribar a Ceuta, a terra prometida que abre as portas à Europa e à riqueza sonhada.

Mas o mar é traiçoeiro e a mãe luta para se manter à tona enquanto a pequena Moisés vai adormecendo sem se aperceber que está em hipotermia.

A morte é quase certa, quando um homem da Guardia Civil a pega nos braços e a tira da água. Com dois meses, a bebé luta para sobreviver, pálida da hipotermia, envolta num cobertor da Cruz Vermelha. Aos poucos, vai abrindo os olhos e vê a voluntária. Não é a mãe e, por isso, chora. A recém-nascida, inocente, não sabe que foi atirada ao mar com a mãe por um Governo sem escrúpulos para pressionar um Governo de outro país. Não sabe que o seu corpinho de apenas cinco quilos está a ser usado como arma política sem que ninguém se importe que tal missão lhe pode custar a vida.

Ela também não sabe que o país onde está não é a sua terra e que essa circunstância irá alimentar discursos repulsivos, xenófobos e extremistas. A Moisés só conhece o básico da felicidade: o odor da sua mãe e o sabor do leite. Mas há em Espanha quem a classifique de uma outra forma. Um peão numa guerrilha cuja missão é apoderar-se de outro país, tirar o trabalho a muito boa gente, chamar-lhes terroristas e ameaçar a sua cultura e a sua religião.

A recém-nascida é o eixo de um discurso racista e xenófobo que existe com maior frequência na Espanha de hoje e, se nada se fizer, o povo ficará entorpecido nas palavras de ódio. Sim, os espanhóis, enfim, os europeus, não conseguem lidar com o maior flagelo deste século: os migrantes. A bebé não sabe o que são fronteiras, patriotismo ou raça. A pequena Moisés sabe apenas uma coisa: que a sua pátria é a sua mãe.

*Editor-executivo

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