Opinião

Quem cala consente

A Igreja Católica francesa, apesar de preservar o segredo da confissão, agiu energicamente ao lidar com os abusos sexuais de menores no seu seio. Por sua iniciativa, a Conferência Episcopal francesa encomendou uma investigação a uma comissão independente, que trabalhou sem restrições. Os dados do relatório são avassaladores: pelo menos 216 mil menores foram vítimas de abusos ou violência sexual, entre 1950 e 2020, por mais de 3300 padres e religiosos.

Esta iniciativa torna ainda mais insustentável a atitude de outras hierarquias eclesiásticas, como a portuguesa, que reluta em reconhecer a sua responsabilidade direta pelos danos causados. A estratégia, por exemplo, do bispo Américo Aguiar, é desviar atenções, ao pretender que o "flagelo da pedofilia" também seja investigado em outros setores da sociedade.

O que é triste é que nada nos permite pensar que a situação em Portugal, à sua escala, poderia ter sido diferente durante os anos em que a Igreja desempenhou um papel decisivo e omnipresente na educação do país. Quase três anos depois de todos os bispos católicos portugueses se terem comprometido a criar nas suas dioceses as comissões para a proteção de menores pela Igreja Católica, só há registo de três queixas e todas elas bastante recentes.

Desde que o jornal "The Boston Globe" descobriu o primeiro grande escândalo de pedofilia na Igreja nos Estados Unidos, em 2002, abriu-se uma caixa de Pandora. Em alguns casos, como em França ou na Alemanha, foram as próprias conferências episcopais que iniciaram as investigações. Portugal é, juntamente com Itália e Espanha, o país onde a Igreja mostra maior resistência ao esclarecimento da verdade.

De acordo com os dados da investigação francesa, a proporção de padres ou religiosos envolvidos em abusos a menores varia entre 4% e 7% do total. A simples extrapolação desses números para Portugal prevê um panorama de impunidade do qual apenas uma pequena parte veio à luz. Daí uma atitude da Conferência Episcopal negadora e obstrucionista. O mais irritante é que perpetua o sofrimento das vítimas, mas também desobedece ao mandato do Papa Francisco.

As suas instruções de colaboração e transparência foram muito precisas e, recentemente, voltou a chamar a atenção para a "longa incapacidade da Igreja" de enfrentar este problema. Com a exceção de alguns bispos e algumas ordens religiosas, a mais alta hierarquia ainda não quer ver e ouvir.

*Editor-executivo

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