Opinião

Um país de ficção

A tomada de Cabul por parte dos talibãs em pouco menos de 15 dias veio pôr a nu toda a fragilidade de um país. 20 anos de intervenção internacional desapareceram em tempo recorde, mostrando que o Estado afegão era uma ficção. O país, que afinal estava nas mãos de senhores da guerra regionais, recebeu os talibãs de braços abertos.

A retirada total dos Estados Unidos estava programada para 31 de agosto, mas os talibãs não esperaram que o presidente Joe Biden cumprisse a sua promessa para avançar em todas as frentes.

As forças de militares afegãs somavam teoricamente 300 mil soldados, sendo que os Estados Unidos investiram 83 mil milhões de dólares (68,7 mil milhões de euros) em armamento e treino, embora seja impossível saber que percentagem desse montante desapareceu na corrupção desenfreada que no Afeganistão se instalou.

Mas este desastre tem claras vítimas: os civis vão voltar a viver sob um regime de terror em que prevalecem os castigos corporais e as execuções públicas. Isso é especialmente verdadeiro para as mulheres, que correm o risco de perder o que ganharam ao longo dos anos. Para os talibãs, as mulheres não têm absolutamente nenhum direito.

Não que sejam obrigadas a viver com burca, mas não podem sair de casa sem correr o risco de serem espancadas, a menos que estejam acompanhadas por um homem. Como se está a ver, a comunidade internacional provou ser incapaz de defender os civis no terreno, embora Biden tenha anunciado o envio de 5 mil soldados para Cabul no sentido de proteger os seus diplomatas.

Está claro que os afegãos foram deixados à própria sorte. Os países que participaram nas missões militares no Afeganistão, incluindo Portugal, estão a anunciar operações de retirada. Os últimos portugueses já saíram em junho. Mas, dada a rapidez do avanço talibã, em muitos casos, infelizmente, será tarde de mais.

A intervenção militar foi um fracasso. Ainda há tempo para que a resposta humanitária não seja.

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*Editor-executivo

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