Opinião

O equívoco do sistema político

O equívoco do sistema político

O sistema político português assistiu, na última semana, a mais uma prova da sua elasticidade de geometria variável.

Com efeito, a questão da lei-travão, no caso dos apoios sociais, evidenciou uma vontade do Parlamento se intrometer na esfera do Governo e, ao mesmo tempo, um presidente com uma leitura branda da Constituição.

O Governo levou muito tempo a enviar os três diplomas para o Tribunal Constitucional. O primeiro-ministro ponderou, de certeza, as consequências de várias atitudes e, acima de tudo, pretende evitar uma crise política e, como disse Jorge Miranda, tudo se poderia resolver com um orçamento retificativo.

Uma conclusão podemos desde já assumir. O debate do Orçamento de 2022 será decisivo para sarar estas feridas à Esquerda. Aliás, o presidente chamou já a atenção para a importância dos orçamentos dos próximos anos.

As alterações do sistema partidário português vieram para ficar com um forte impacto na Direita parlamentar. Tudo parece conjugar-se para que os extremos ganhem mais vida na cena política.

O eleitorado parece estar a sofrer uma forte erosão com a ausência de reformas que o Partido Socialista imprime à vida portuguesa. A Esquerda, PCP e Bloco, já não conseguem atrair os descontentes nem motivar os mesmos.

À Direita, o PSD tem um duro teste nas eleições autárquicas. Precisa de recuperar cerca de 60 autarquias o que parece complicado. A entrada da Iniciativa Liberal e do Chega na Assembleia da República, associada à aparente queda do CDS, provocaram uma nova leitura sobre uma futura maioria de suporte parlamentar a um Governo de frente não socialista.

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Vemos o sistema político em toda a sua capacidade a passar por mais uma transformação neste ciclo.

Os tradicionais partidos de poder, como o Partido Socialista e o Partido Social Democrata, estão a ser postos à prova neste processo de mudança. Menos o PS porque, sendo poder, consegue obter recursos de sobrevivência.

Se juntarmos a esta ideia a possibilidade de os candidatos independentes poderem fazer mais um partido antevemos as alterações que podem estar subjacentes.

Ao mesmo tempo, Portugal vai definhando nos rankings da União Europeia e os cidadãos não compreendem a ausência de políticas públicas que permitam reformas para garantir a sobrevivência do Estado social e o desenvolvimento da iniciativa privada na economia.

A possibilidade de mais impostos, para ultrapassar a crise económica que se prevê, pode evidenciar que o atual ciclo político pode estar a chegar ao fim.

A ver vamos.

*Professor universitário de Ciência Política

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