O Jogo ao Vivo

Opinião

O caso das FP25

Durante o presente ano, o caso de terrorismo interno conhecido por Processo FP25 voltou a ser alvo de intenso noticiário, de debates e comentários televisivos.

Trinta e sete anos após o início do processo principal e trinta e quatro anos após a primeira decisão condenatória, constato que é bastante deficiente e desfocado o conhecimento dos cidadãos sobre um período violento que afectou a nossa vida colectiva, espalhando o terror, a morte e o medo. Em algumas das intervenções e comentários públicos surpreende-se uma tentativa de classificar politicamente a organização FP25, mas o certo é que o terrorismo não tem política, não é de Esquerda nem de Direita, é puramente terror, inimigo das democracias e da liberdade, querendo apenas instituir o caos e disseminar a intranquilidade e a dúvida no normal funcionamento das instituições. Pretende, enfim, estabelecer o medo e o silêncio. As prováveis razões da recuperação do interesse pelo caso terão sido a publicação da obra do conselheiro Cunha Rodrigues, "Memórias improváveis", que lhe dedica dois capítulos, relatando vivências até agora não divulgadas; a publicação do livro de Nuno Gonçalo Poças, "Presos por um fio - Portugal e as FP-25 de Abril", que retrata com muito rigor a organização, a sua nomenclatura, a sua estrutura, as suas reuniões e as suas actividades criminosas. Será também de ter em conta a inesperada partida de Otelo Saraiva de Carvalho, que lamento pessoalmente, e que terá constituído um motivo determinante das diversas notícias, porquanto, no desenho do seu perfil e no relato da sua personalidade, foi imperioso mergulhar no percurso que Otelo, por si e para si, esculpiu na História de Portugal, de herói do 25 de Abril de 1974 a dirigente de uma organização terrorista.

Em minha opinião, o seu lugar cimeiro na História da implantação da democracia em Portugal está gravado indelevelmente. Porém, alguns anos depois inverteu a sua marcha de herói e afundou-se na criação de um projecto terrorista, que dirigiu e designou de projecto global comummente conhecido por FP 25 de Abril. Esta organização era composta por quatro componentes, sendo uma delas a da violência, a estrutura civil armada (ECA), que levava a cabo, executava, os actos criminosos determinados pelas componentes direcção político-militar (DPM) e OSCAR (Otelo Saraiva de Carvalho). Considerando os anos já passados desde a Amnistia de 1995, a não permissão da divulgação pública das alegações do MP apresentadas, em tribunal, em 1997, determinada pelo então ministro da Justiça e o facto de ter constatado que existe ainda muita nebulosidade no que concerne aos julgamentos a que a organização e seus militantes foram sujeitos e sendo um período histórico que interessa a todos reter para prevenção de outros extremos que possam vir a ser concebidos, parece-me importante recuperar, ainda que sinteticamente, a história desta organização e do seu julgamento.

A autora escreve segundo a antiga ortografia

Ex-diretora do DCIAP

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