Opinião

O caso das FP25 (continuação)

O caso das FP25 (continuação)

Foram apreendidas à ordem de ambos os processos inúmeras armas de guerra, utilizadas nos homicídios, nos assaltos a empresas, a bancos e em atentados à integridade física de diversos industriais, prova testemunhal, documental e logística (localização de "cárceres do povo" e esconderijos de arsenal de armamento disfarçado no subsolo de uma casa).

Nas sedes da FUP, foram encontrados documentos manuscritos e escritos à máquina que, conjugados e cruzados com os apreendidos a Otelo e a outros co-arguidos, permitiram desenhar completamente a estrutura, logística, identificação dos elementos mais relevantes e responsabilidades de todos e de cada um no seio do projecto global/FP25. De entre os documentos recolhidos na FUP, sublinham-se 27 documentos, escritos por diversos elementos da DPM, OPM, ECA e OSCAR, levados a discussão e votação numa reunião secreta, ocorrida na serra da Estrela, a que chamaram Conclave, com todos os presentes encapuzados e, à frente de cada um, apenas um cartão com um algarismo que os identificava. No cartão com o número 7, Otelo manuscreveu frases muito reveladoras quanto às suas ideias sobre a violência, relativamente ao documento número 16, que estabelecia as regras para a intervenção violenta das várias componentes na decisão e execução dos crimes a levar a cabo. No que concerne à morte dos cidadãos, que a organização considerava inimigos, Otelo escreveu que se "contentava com o perfil do in a abater". Macedo Correia também participou nesta reunião, nela apresentando propostas de projecto político-terrorista, táctica e estratégica da organização, os crimes a executar. Naquele documento, no número 16, apelava-se à urgência de iniciar os "engarrafamentos", que em gíria terrorista significava raptos, sequestros, seguidos da colocação das vítimas em "cárceres do povo". Em julgamento, Otelo, confrontado com o documento, respondeu, quando especificamente perguntado sobre os "engarrafamentos", que pensava que "eram engarrafamentos de água do Luso". Sobre a violência em geral que emanava do referido documento, Otelo respondeu que a sua organização fora infiltrada pelas FP25. Recorde-se que dois daqueles "buracos" para confinamento das vítimas raptadas foram construídos com a participação de António Barradas, um dos colaboradores da justiça, morto a tiro pela organização, quando já se encontrava marcada data para julgamento.

Por outro lado, foi apreendido nos autos um documento manuscrito por Otelo Saraiva de Carvalho que dava conhecimento aos seus pares de um elemento da ETA estar disponível para vir a Portugal orientar e explicar a construção dos "cárceres do povo" e como acondicionar neles as vítimas, a troco da entrega de um caderno de cheques falsos. (continua)

*Ex-diretora do DCIAP

A autora escreve segundo a antiga ortografia

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