Opinião

La carta de papel

Três jovens assaltaram uma estação dos CTT na Cruz de Pau, Seixal. Seria uma notícia algo banal, se não estivéssemos a falar de um roubo que teve o mesmo nível de planeamento de uma festa de aniversário do meu primo de 12 anos. Foi um crime temático e a inspiração foi a série "Casa de papel".

Antes de começar a relatar os factos, na série, cada assaltante tem o nome de uma localidade e, embora não tivessem sido revelados os seus nomes, para efeitos de narrativa vamos chamar-lhes Paio Pires, o Arrentela e o Fernão Ferro.

Parece que os três larápios com nome de freguesia se disfarçaram com as icónicas máscaras do Salvador Dalí, roubaram o carro a uma funcionária do hospital de Almada e foram assaltar um balcão dos correios. Cá em Portugal, as nossas histórias têm de se adaptar ao orçamento. Se na série os 14 malandros atacam instituições como a Casa da Moeda ou o Banco de Espanha, aqui assalta-se os CTT da Cruz de Pau. Não são a Casa da Moeda, mas o que para lá deve haver de trocos que uma pessoa leva para os selos.

Após roubarem 1985€ em numerário, os meliantes puseram-se em fuga. Talvez pelo seu meio de fuga ter sido a pé, foram apanhados em quatro minutos pela Polícia, escondidos na casa de banho de um snack-bar local. Quatro minutos. Isto não é bem uma serie, é mais um vídeo de YouTube.

No final, foram apreendidas várias coisas, entre elas quatro pares de luvas e quatro facas. PLOT TWIST! Eu nunca fui boa a matemática, mas quer-me parecer que falta aqui uma personagem. Fácil. Na série, quem é aquele que nunca dá a cara? O professor. Ou neste caso, o "stor"!

No final, os jovens ficaram em prisão preventiva, mas como na série, eles nunca são bem presos. Há sempre um plano do professor para escaparem. Não sei quanto a vocês, mas eu estou ansiosa pelo próximo episódio.

Tanto que quero dar aqui umas ideias, se quiserem pegar em alguma estejam à vontade. Ora bem, vamos fazer uma coisa mais à portuguesa. Um grupo de gatunos com o Arrentela, o Paio Pires e o Fernão Ferro mas que, em vez de máscaras do pintor catalão, porque não trocar para umas máscaras do Júlio Pomar? E se, na série original, vivemos intensamente o recrutamento daqueles marginais, podíamos nós também fazer uma cena em que recrutávamos o Santiago do Cacém, o Marco de Canaveses e até o Montemor-o-Novo e o Velho, que a nossa série não é idadista e há espaço para todos.

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O público ficará absolutamente rendido quando revelarmos que o "stor" é afinal um docente da escola pública que finalmente se revolta contra o sistema, depois de anos a sofrer com as colocações em cada ano letivo e que para se fazer alguma justiça, a seguir ao balcão dos CTT, decide arriscar ainda mais e engendrar um plano para assaltar uma payshop. Daquelas em que as pessoas vão pagar a luz e o gás e ainda aproveitam para comprar raspadinhas.

Vou apresentar à Netflix.

*Humorista

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