Opinião

As crises: quem sofre são os povos

As crises: quem sofre são os povos

Vão-se multiplicando os pronunciamentos políticos que enfocam o inesperado que cada crise nos apresenta, como argumento justificativo de sacrifícios impostos aos cidadãos. Afinal, o que têm de diferente e o que têm em comum as crises que vão surgindo? Porque razão as suas duras consequências recaem sempre sobre o mexilhão?

As diversas crises têm de diferente as suas origens: em 2007/ /2008, foi a especulação imobiliária nos Estados Unidos, rapidamente exportada para a Europa e, como reflexo, entre 2010 e 2015, as políticas de austeridade impostas pelos países poderosos do "centro" da Europa aos periféricos como Portugal; em 2020, foi um grave problema global de saúde pública provocado pela covid-19; em 2022, foi a invasão da Ucrânia pela Rússia e a guerra em curso. Outras crises se abatem sobre a humanidade, e sentimos novas ameaças vindas dos problemas climáticos e ambientais, dos bloqueios demográficos, da falta de adequadas políticas públicas, de falsos determinismos tecnológicos, de desastres nas democracias, dos confrontos entre impérios, da hipótese de utilização da bomba atómica.

Contudo, os "vírus" e as consequências que cada crise expõe são, fundamentalmente, os mesmos. O vírus principal é o neoliberalismo que tudo transforma em mercadoria, desde os mais significativos elementos da natureza até aos atos humanos, como o exercício da solidariedade ou a gestão da pobreza. As consequências das diversas crises são também as mesmas: mortes e sofrimento, mais exploração de crianças, mulheres e grupos de pessoas com vulnerabilidades, aumento da instabilidade e da exploração no trabalho, acelerada concentração de riqueza por parte de uma minoria de poderosos, aprofundamento das desigualdades, e gravíssimas ruturas nas relações sociais.

Na evocação dos dez anos do Observatório sobre Crises e Alternativas, José Reis, ao analisar as crises dos últimos catorze anos, afirmou que "é preciso não cometer o erro de pensarmos que as crises vêm de fora da nossa vida. É o modo como a nossa vida material se organiza, que está no centro de tudo". Referindo-se ao que a pandemia de covid-19 expôs, enunciou: "intensas mobilidades com delapidação do ambiente, elevado consumo energético e criação de vulnerabilidades, "cadeias de valor globais" com enfraquecimento da capacidade interna e geração de dependência nos sistemas de produção e provisão de proximidade". Acrescentou que, "entre nós, encontrámos nessa crise o que lá pusemos (antecipadamente): a dependência industrial que tínhamos acumulado, o trabalho precário que tornámos norma,...a excessiva economia de serviços banais e, nela, o turismo...e outros setores de baixa produtividade em que assentamos a criação de emprego".

No seu entender, a guerra na Ucrânia veio confirmar alguns daqueles "termos excessivos em que se estabeleceu a economia mundial" e realçar outros; e vai expondo o "confronto de grandes poderes". Na opinião de José Reis, "reencontramos uma palavra velha: imperialismo". Por mim, direi que estamos perante uma luta interimperialista, sem precedentes na história.

As diferenças nas políticas monetária e orçamental adotadas pela União Europeia face à pandemia confirmaram que sempre existem alternativas. Mesmo assim, tudo indica que vai prevalecer a exploração dos mais frágeis. O drama acrescido é que a cavalgada do neoliberalismo já não dispensa a participação das forças fascistas.

*Investigador e professor universitário

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