Opinião

As decisões e os homens

As decisões e os homens

É possível, por estes dias, que o país comece a sentir-se algo perdido nas leituras que vamos tendo sobre a evolução da pandemia e as perspetivas para a atividade económica e social.

Firme a assumir um calendário e uma matriz de risco rigorosa, António Costa mostra sinais pouco claros, primeiro, ao apontar riscos de transmissão elevados nas escolas, sem concretizar números nem clarificar qual o ponto exato em que admite travar uma nova etapa de desconfinamento, depois sublinhando que os riscos afinal não são tão elevados.

Com o famoso R a subir perigosamente para níveis de risco, os próximos dias serão decisivos para perceber como evolui o ritmo de transmissão, sabendo todos que a vacinação, essencial para alcançarmos a imunidade de grupo, tem conhecido inesperados travões e abalos no índice de confiança da população, com as sucessivas polémicas em torno da segurança da AstraZeneca.

As questões sobre a mesa do Governo vão, contudo, muito além da esfera sanitária. O primeiro-ministro já assumiu que a fronteira da matriz de risco não é rígida e que o índice de transmissão tem de ser lido em conjunto com a taxa de incidência, mas torna-se difícil avaliar até onde poderá ir a subjetividade dessa leitura. E que efeitos económicos, sociais e até motivacionais poderá ter um travão, no momento em que algumas empresas tentam desesperadamente manter-se à tona.

Sobra, além disso, uma questão social que merece centralidade no debate. Se nos primeiros meses do ano o Governo se manteve firme na mensagem de que as escolas não eram foco de transmissão, e se sempre ouvimos sobrepor prioridades e assumir perdas graves decorrentes do encerramento, as recentes declarações de António Costa abrem margem para dúvidas. O Governo hesita em manter o plano de fazer regressar todos os alunos às escolas e de assumir que o ensino presencial é essencial para toda uma geração? A decisão não é apenas de saúde. É uma opção política de fundo.

P.S. "A culpa não pode morrer solteira". Poucas frases marcam tanto a vida dos homens como a proferida por Jorge Coelho, na noite trágica da queda da ponte de Entre-os-Rios, que provocou a morte de mais de 60 pessoas. Era ministro do Estado e do Equipamento Social no Governo de António Guterres. E demitiu-se, sem hesitar. São cada vez mais raros aqueles que sabem estar na política como na vida. Morreu ontem, aos 66 anos.

*Diretor-geral-editorial

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