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Hugo Silva

#subvenção

No fundo, tudo se resume à semântica. Uma mentira soa melhor se for só uma inverdade. Chamar alguém de trabalhador tem conotação negativa, colaborador é muito mais amigável. Dizer deslocalizar é preferível a anunciar que se fecha aqui para abrir noutro lado com colaboradores mais baratos. Por isso, entendo que se chame subvenção ao dinheiro que todos os meses mais de duas centenas de políticos e juízes levam do Estado de forma vitalícia. Não soava bem dizer que tais individualidades recebiam um subsídio. Isso é para os preguiçosos do rendimento mínimo ou dos desempregados. Subvenção tem nível. Afinal, estamos a falar de mais de meio milhão de euros por mês. E é preciso respeitar quem sempre colaborou tão bem. Só não percebo quem apregoa que já não há empregos para a vida. É que desta zona de conforto muito poucos querem sair.

Hugo Silva

#doenças

A doença das vacas loucas e a gripe das aves já são "old fashion", mas um morcego continua a ser suspeito de causar a pandemia de covid-19 e temos a varíola dos macacos em alta. Apesar da situação de emergência no SNS, sou obrigado a concordar com quem diz que não há falta de médicos. Pelo menos, daqueles que tratam seres humanos, porque a conversa é outra se falarmos de veterinários. Onde anda esta gente, que a bicheza farta-se de nos passar doenças? Mas enquanto estes especialistas não assumem de vez a missão de pôr os animais a tomar a medicação a horas, podíamos contratar mais uns clínicos para o SNS, pagando em condições. E formar mais médicos, para garantir que não se voltam a fechar serviços. Os animais são muito importantes, mas se não tratarmos dos humanos, quem dá a comida aos cãezinhos, gatinhos e periquitos?

Hugo Silva

#gourmet

Há uns quantos cães na vizinhança que me fazem querer comer cabrito todos os dias. Mas como sou uma pessoa mais de gatos, enjoei o coelho. A lebre não me aquece nem me arrefece. A não ser que seja gourmet. Em matéria de quantidades, vou passar a ser gourmet. Uma amostra de comida no prato, com espuma disto e redução daquilo, já chega. Ao preço a que as coisas estão no supermercado também não dá para mais. Os carrinhos das compras já estão parados, a enferrujar. Para a bolsa dos portugueses, um cesto dos pequenos, daqueles sem rodinhas, é suficiente. Sempre se poupa para o Primavera Sound. É caro e também não deixa de ser gourmet. Só 10% das bandas são para comer. O resto são espumas e reduções, que ficam bem numa suculenta foto de rede social. Ao lado da imagem de um cãozinho e de um gatinho. Bom apetite!

Hugo Silva

#dores

Só quem nunca se trilhou no fecho-éclair da carcela, deu uma topada com o dedo mindinho numa mesa ou tentou pedir um cartão do cidadão pode acreditar que as palavras são o que mais magoa. As palavras agridem, sim, mas podemos sempre ripostar, algo impossível perante uma carcela, uma mesa ou a incompetência de serviços públicos. E se podemos apostar em braguilhas com botões ou forrar a mobília com esponja, face ao inferno da burocracia estamos indefesos. Online, o sistema falhou sempre. Telefonicamente, a linha de apoio não pôde apoiar. Presencialmente, entre greves, senhas esgotadas de madrugada e uma responsável de loja do cidadão que merecia o prémio para o melhor "quero lá saber" do ano, o processo não teve melhor desfecho. As palavras não são o que mais magoa. Mas às vezes apetece mesmo gritar umas "pedradas".

Hugo Silva

#casinha

A casa, chamemos-lhe assim, é um quadrado acanhado. Uma minicozinha e ao lado, sem separação, sanita e chuveiro. Em frente, a cama e uma mesa com duas cadeiras. Um open space - muito open (não há maior abertura do que cozinhar ao lado da retrete) e pouco space (não há espaço menor quando se está sentado na retrete quase colada ao fogão onde a sopa está ao lume) - que só custa 575 euros por mês. A pechincha é apenas para uma pessoa. Se for mais alguém para lá morar - na improvável hipótese de ali caber mais um ser humano - o preço sobe. O cubículo fica no Porto, mas em Lisboa é igual. Há senhorios bons em todo o país. É a mesma gente que se queixa dos impostos, esses malvados que só servem para subir o preço dos combustíveis. Os lucros das gasolineiras nunca influenciam a fatura. Coitadas. Já não há liberais como antigamente.

Hugo Silva

#tendências

Três cadeias de hipermercados e uma marca de produtos de higiene e cuidado pessoal foram acusadas de combinar os preços de venda ao consumidor. Uma investigação que só demorou cerca de 20 anos permitiu à Autoridade da Concorrência desferir esta machadada na máfia dos champôs e das loções corporais. E renova a esperança que, em meados de 2097, possam surgir conclusões sobre uma eventual análise à coincidência de preços dos combustíveis. Em 2009, concluiu-se que os valores só acompanhavam a tendência internacional (muito gostamos nós de seguir as modas do estrangeiro) e que o facto de serem iguais em todas as marcas devia-se a um "paralelismo de comportamento" e "não à existência de concertação". Tenho a certeza que o assunto continua a ser aprofundado e em poucas décadas teremos novidades. Até porque causa muita caspa.

Hugo Silva

#elesenós

Não costumo fazer este tipo de apelos, mas não podia ficar indiferente ao desespero. Vamos unir-nos e ajudar quem mais precisa. No ano passado, a Galp só atingiu lucros de 457 milhões. O Santander só conseguiu 298,2 milhões e o Novo Banco ficou-se pelos 200 milhões, miséria que obriga a pedir mais dinheiro ao Fundo de Resolução. Presumo que a dificuldade extrema se estenda aos outros bancos. E a queda dos lucros da EDP para 657 milhões? Vamos unir-nos para ajudar. Um euro a cada um pode fazer a diferença. Dê o que puder. Hoje por eles, amanhã por nós.

Hugo Silva

#cabeçadas

Sinto que o meu carro anda a tentar matar-me. Já foram quatro - uma, duas, três, quatro! - as vezes em que esmurrei a cabeça na porta da mala em pouco tempo. Abro aquilo, aquilo começa a subir a toda a velocidade mas depois aquilo pára abruptamente. E aquilo fica à espera que eu volte a dar uma valente cabeçada. Bem sei que tenho levado o bicho aos limites da reserva de combustível, mas é que o gasóleo está caro... E explicar-lhe isto? Ainda tentei que ele visse meia dúzia de debates dos candidatos às próximas eleições legislativas para perceber que a vida anda difícil. Mas com tantos pré-comentários, pós-comentários, diretos à porta de edifícios, diretos dentro dos edifícios, declarações à chegada e declarações à saída temi que o rancor do carro para com a minha pessoa se agigantasse. E a máquina passasse da tentativa de homicídio para a sua consumação.