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Joana Almeida Silva

#fogo

O M. ainda não chegou aos 25. Vive no mundo bonito dos jogos e das apostas. Viaja volta e meia, mas quem o conhece sabe que a cara não mostra a alma. Sofre de ansiedade. Como, se é tão jovem? Sofre de se saber frágil. Como, se tem tudo? Parece viver no pico da existência. Não vive. A doença mental não escolhe idades. Mais uma vez, a OMS veio chamar a atenção para este problema que cresceu durante a pandemia e que afeta mais de mil milhões de pessoas em todo o mundo. O M. faz parte da estatística. Não é velho, não tem demência. É muito novo, mas tem dores da alma, aquelas para as quais se tem de investir mais, em todas as faixas etárias, porque os custos do tratamento são, como sempre, bem maiores do que os que poderiam ser aplicados na prevenção. A doença mental é uma espécie de fogo descontrolado a consumir a sociedade.

Joana Almeida Silva

#bebé

Eram os 40 anos do 25 de Abril e quando entrei no escritório de António Arnaut disse-me que se ele era o pai do SNS, "a mãe era a Constituição". Deu-me para as mãos um molho gordo de folhas com sublinhados e anotações. "Escrevemos aqui o que é hoje o SNS". Quão ultrajante é para esse projeto maior do país saber-se de uma grávida que perdeu um bebé por haver um serviço de urgência encerrado por falta de médicos. Não pode acontecer. Não pode repetir-se. Apurem-se todas as responsabilidades. A primeira comissão para a saúde materna e neonatal foi criada nos anos 80. O pediatra Octávio Cunha, que integrou essa equipa, ajudou a delinear o plano para acabar com a trágica taxa de mortalidade infantil da época. "Hoje, é uma catástrofe quando morre uma grávida", disse-me durante uma entrevista. É também uma catástrofe quando morre um bebé.

Joana Almeida Silva

#felicidade

A felicidade é um conceito e um princípio contemporâneo. A "felicidade é epidémica", disse-me Edgar Cabanas Díaz, ao telefone, numa entrevista. É autor de um livro que compara a busca da felicidade a uma espécie de ditadura do sorriso. Temos mesmo de estar sempre felizes? Não temos. Podemos ter dúvidas, como assumiu o vocalista dos Metallica, num concerto esta semana, ou Tom Jobim e Vinicius de Moraes, ao cantarem "Tristeza não tem fim, felicidade sim". A luta pela felicidade no mundo livre tem dias, ou momentos, de glória. Mas há todo um mundo, ainda demasiado grande, cuja luta é por liberdade e igualdade. Princípios esses bem mais antigos. Em dias tão rápidos, é inútil perseguir a felicidade a cada minuto. Essa obsessão é demencial. Ser feliz deve ser um objetivo permanente, não um fim que gera frustração e angústia.

Joana Almeida Silva

#fogueiras

Temo que o prolongar da guerra faça amenizar ou até alterar as posições de fraternidade tão amplamente manifestadas nestes mais de 40 dias de extrema violência. Aqui e ali, vou ouvindo comentários que antecipam essas mudanças perigosas. Quando a Segurança Social anunciou a criação de mais lugares nas creches para refugiados ucranianos houve quem se erguesse contra a medida, criticando a inesperada elasticidade governativa por ser "discriminatória" para com os portugueses ou outros refugiados. O mesmo ouvi ontem sobre os médicos ucranianos que vão "passar à frente" de outros refugiados na luta para entrar no SNS. São formulações de análise demasiado simplista, pouco rigorosa e ao estilo bitaite. O perigo é que é dessa lenha bitaiteira que se alimentam as fogueiras do populismo e algumas faúlhas ameaçam começar a cair aqui e ali.

Joana Almeida Silva

#Cro-Magnon

O discurso do almirante Gouveia e Melo serve para fuzileiros e para todos os outros, militares e civis. As palavras do chefe do Estado-Maior da Armada são de um pacifista. "Quando vejo alguém a pontapear um ser caído no chão, vejo um inimigo de todos nós, os seres decentes (...) vejo acima de tudo um verdadeiro covarde". É neste pensamento que me revejo e, como leiga, exijo pena máxima para todos os que assassinem alguém à pancada, porque os bárbaros não podem ter atenuantes, muito menos quando sabem que o poder que têm pode ser fatal. A morte do agente da PSP em Lisboa causa tristeza e muita indignação. É chocante a ideia de que alguém pode tirar a vida a outro ser por motivos tão frívolos. Queria acreditar que tínhamos evoluído desde os Cro-Magnon - nome usado na minha terra para insultar quem vive ainda nas cavernas.

Joana Almeida Silva

#diasnegros

Estava a conduzir, o meu miúdo no banco de trás, a sorrir, e a rádio fazia soar as notícias mais recentes da guerra na Ucrânia. O menino da Ana fez um ano na quinta-feira e comentamos quanto nos entristece ainda mais ver tudo isto, agora que vivemos no futuro, projetado nos pequenos passos do crescimento. Um futuro que não será possível para as vítimas dos bombardeamentos. É esta a dimensão que mais importa. Nos vídeos partilhados online, há histórias de famílias que nunca mais vão celebrar um aniversário, nunca mais vão voltar a casa, porque a que tinham foi pelos ares. Os ucranianos vão ser deixados a lutar e a morrer sozinhos porque nenhuma força externa se atreve a desafiar o colosso militar russo, apoiado pela China, mas há uma obrigação de solidariedade com a nova vaga de refugiados criada pelos terrores de Leste.

Joana Almeida Silva

#aquibem

Hoje, sentei-me no meio da serra Amarela e quase consegui ouvir o bater do meu coração. Num lugar idílico, de lobos, sem os ver, perdi-me na beleza de um país que se consegue percorrer de lés a lés num dia e onde algumas almas lutam para o preservar tão intacto quanto possível. Há outros que o usam apenas para promover o lucro, aumentar a receita municipal através de projetos de turismo em massa, em áreas onde a existência animal deveria ser exclusiva. Pior ainda estamos quando caçadores furtivos usam da fraca capacidade de fiscalizar quilómetros e quilómetros de serra para servir cabeças de animais na sala de jantar. A impunidade é enorme porque não há flagrante delito, nem testemunhas, muitas vezes, apenas e só, corpos decepados. E assim se estraga a pintura de um país que tem na Natureza um tesouro inestimável.