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João Gonçalves

Funesta Primavera

Acaba hoje a Primavera. E esta foi a pior Primavera da minha vida. Desde logo, o tempo. O mês de Maio, o mês das cerejas, se teve dois ou três dias luminosos, sucedeu por acaso. Vinha já de trás. Em Março começou verdadeiramente o Inverno. Depois, e agora entro por uma única e última vez no plano estritamente pessoal, a minha Mãe esteve internada duas vezes, num curto intervalo entre ambos os episódios, num equipamento hospitalar do SNS da área a que pertence a residência geriátrica. Da primeira, acompanhei-a um bom bocado no serviço de urgências até passar para as observações. Era de noite, de madrugada, e as coisas pareciam correr com um módico de normalidade. O hospital informava pelo telefone da "evolução" - coisas respiratórias e, no fim, uma bactéria detectada no nariz - e a alta foi rápida. Da segunda vez, há cerca de um mês, o mesmo percurso com alguns dias de internamento. O que me permitiu visitá-la nos dias adequados, e dar-lhe água, muita água, pois esse era o problema fundamental: a desidratação. Lembrei-me que o coração também se desidrata. Há uns anos, ela tinha feito um exame ao dito e recordo que, quando a fui buscar - ela foi sempre de uma autonomia fantástica -, a médica lhe teria dito que o coração só estava um bocadinho seco. Precisava de água, e tomara muita gente mais nova ter um assim. Só que desta vez diagnosticaram uma pneumonia. E, na minha inútil opinião, teve alta para a residência cedo de mais. Via-a somente "bem" nessa tarde, na residência, na situação de acamada que nunca mais deixou por aproximadamente três semanas. Durante estes três anos, a minha Mãe constituiu o pivot dos meus dias, das minhas horas e das minhas noites. As poucas vezes que não pude lá ir, telefonávamo-nos várias vezes ao dia, até por "whatsup". Ia vê-la e levava o trabalho atrás. Fiz de um restaurante lá perto um segundo "escritório". Vi-a viva pela última vez faz hoje oito dias. Ela exprimia-se mal, mas os olhinhos estavam muito vivos e as mãos, que apertei muitas vezes, mais agitadas que o costume. Morreu-me nessa madrugada. Celibatário como Proust, não hesito a recorrer a ele que, em carta a um amigo, falou numa ternura que apenas os pais podem dar. "Depois disso, quando já os não temos, nunca mais a conhecemos, seja de quem for". O deputado do PS Sérgio Sousa Pinto afirmou, e bem, que a dra. Temido perdeu a confiança do país que ela, aliás, "acompanhava" nas férias de Junho. O verdadeiro ministro da Saúde respondeu, com a insolência habitual, que "era só o que faltava era andar a seguir as opiniões do Sérgio Sousa Pinto". Sucede que as opiniões do deputado são geralmente coincidentes com as do país. A de Costa e da sua ajudante, não. São pura e simplesmente estúpidas, arrogantes e funestas. Como esta Primavera de 2022.

João Gonçalves

Cavaco incomoda suas excelências

No seu discurso de tomada de posse como primeiro-ministro da segunda maioria absoluta do PS, António Costa meteu uma "bucha" no que levava escrito. Costa quis afastar-se das maiorias de Cavaco - Sócrates, para ele, já não conta há muito tempo - e tratou de afirmar que a sua era diferente, até porque era de uma geração que tinha "combatido" o poder absoluto dos anos 90. E ele não é homem para confundir maioria absoluta com poder absoluto. Cavaco esperou e, entre um artigo irónico destinado a saudar o Governo de Costa e uma entrevista televisiva, respondeu ao seu rasteiro interlocutor. Em geral, o PS e o Governo contentam-se em evocar Passos Coelho, e a ominosa troika, quando querem empurrar com a pança os problemas que eles agora têm de resolver por força do voto. Costa puxa permanentemente do cuspo para "virar as páginas" da austeridade (Passos), da pandemia e mais recentemente das consequências da guerra na Ucrânia. Em geral, Passos faz as vezes por todos. Mas, ao fim de seis anos, acompanhado ou sozinho, Costa já não tem desculpa para recorrer à sua famosa língua de pau. É da natureza do PS, e dele em especial, garantir apenas uma coisa: a manutenção e a distribuição do poder pela "casa". Cavaco veio chamar a atenção para isto sob dois aspectos. O primeiro, a facilidade que Costa encontrou nestes quatro anos sem oposição, com um PSD praticamente transformado em partido médio e regional, com uma liderança enamorada do PS em vez de lhe fazer oposição total. Cavaco criticou abertamente a liderança de Rio precisamente por ter ignorado que, se existe partido que não quer saber do reformismo para nada, esse partido é o PS. E criticou-o por não ter querido deliberadamente fazer a defesa do Governo de Passos Coelho que teve de resolver a "ressaca", com um plano de assistência económica e financeira exterior, da bancarrota deixada pelo último Governo do PS antes dos de Costa. Por outro lado, Cavaco, sem medo das palavras, colocou a falta de sentido ético no desempenho político geral do PS e dos seus governos. Não lhes chamou amorais, embora tenha exemplificado concretamente com atitudes políticas mais adequadas a partidos com uma visão totalitária e autoritária do exercício do poder do que próprias de partidos democráticos. Com a complacência notarial, por acção ou omissão, do actual presidente, acrescento eu. Cavaco tem os seus governos e a sua presidência a justificarem plenamente a oportunidade das suas palavras num momento em que os reis estão nus. O adversário é o PS e a sua trupe medíocre no Governo, no Parlamento e nos órgãos de comunicação social. Ponto final, parágrafo.

João Gonçalves

Macbeth Rebelo de Sousa

António Costa já formou três governos. O primeiro, de cernelha, numas salas esconsas do Parlamento onde assinou umas quantas papeletas bilaterais com a Esquerda. O segundo, minoritário, também, mas resultante directamente do voto popular. E, finalmente, este, de maioria absoluta, com um horizonte de quatro anos e meio. Ou seja, para lá do mandato presidencial de Marcelo que termina em Março de 2026. Isto se tudo correr bem para eles todos, algo que me é totalmente indiferente, salvo nas condicionantes externas de mau augúrio. Não votei em nenhum deles desta vez. Quanto ao ponto, o destino circunstancial da pátria, esse já me interessa sobretudo mais a título trágico-cómico do que por causa do "futuro" da mesma, algo para que me estou nas tintas. Ora Costa, que tinha aqui um belo momento na sua carreira artística, iniciada aos treze ou catorze anos no PS, perdeu-a. E perdeu-a ao formar um dos governos politicamente mais medíocres de que existe memória. Como a presença individual dos seus membros na Assembleia da República, para discutir o Orçamento do Estado para meio 2022, tem amplamente comprovado. Manteve gente que devia ter sido corrida sem dó nem piedade, uns no mesmo sítio, outros apenas mudando de casa. Ou acrescentando "novidades" que nada acrescentam ao país. O que significa que, mais uma vez, o Governo é só ele, Costa, para o melhor e para o pior. Marcelo, que percebe sempre tudo daqui a Marte, intuiu isto e mais. Percebeu que os bons tempos acabaram. Os dele, evidentemente, fora as cortesias a que o protocolo das visitas de Estado obriga. É rei sem coroa, e está permanentemente a ver passar os diversos espectros de Costa nos espelhos da Ajuda e de Belém. Vai daí, ao receber os partidos a pretexto do Orçamento, "queixou-se" da sua nova vida. Queria "aparecer" mais, está "alarmado" com o PM - que ele "fabricou" nesta versão "Costa, O Moderado" durante seis aturados anos -, teme revisões constitucionais, fala em sucessores sem se rir (conseguindo pôr o país a rir com as duas sugestões televisivas em apreço). Por fim, defendeu que devemos "beneficiar" da guerra na Ucrânia porquanto "o inteligente é saber aproveitar essa ocasião" de estarmos longe dela, logo, somos "um beneficiário líquido" (palavra de honra) do que se passa na Ucrânia. Transformou-se num Macbeth sem Lady. Conhecem a tragédia de Shakespeare, com certeza. Num aparte, Macbeth, muito lúcido e muito cedo, previu tudo. "Meu pensamento move de tal sorte que as faculdades se me paralisam. E nada existe mais senão aquilo que não existe". Leia, ou releia, a peça, senhor presidente. Vai ver o bem que lhe faz.

João Gonçalves

Idade maior ou menor?

O regime fundado com a revolução imperfeita de 25 de Abril de 1974, como lhe chamou José Medeiros Ferreira, atinge hoje a bonita idade de 48 anos. Se contarmos, como devemos, a Primeira República enquanto puro regime da ditadura do Partido Republicano, depois Democrático, então o país viveu praticamente todo o século XX em ditadura. A do sr. dr. Afonso Costa, primeiro, a "Militar" propriamente dita, entre 1926 e 1933, e a do doutor Salazar, "aligeirada" a partir de 1968 por Marcello Caetano, até 1974. O que se seguiu imediatamente a esses idos de Abril também não pode designar-se propriamente por democracia, muito menos "plena". Exílios, detenções sem culpa formada, perseguições interpartidárias, expulsões de empregos e de universidades, conflitos entre facções militares que se imaginavam "vanguardas do povo", contestação às primeiras eleições livres, etc. Em suma, aquilo que ficou conhecido por "PREC", "processo revolucionário em curso", constituiu evidência de que, pelo menos durante quase dois anos, Portugal não conseguiu crescer para a democracia. Só após o 25 de Novembro de 1975, que deu início a um ciclo de normalização militar, institucional e política - que culminou no ano seguinte com a primeira eleição legislativa, com a do presidente da República e com a posse do I Governo Constitucional, em Julho de 1976 - se poderá verdadeiramente "comemorar" os anos que se leva disto. Menos de 48, sem dúvida. E se a revolução era imperfeita, este regime não se tornou entretanto menos. Bem pelo contrário. Em Abril de 1973, no Congresso de Aveiro, a Maria Emília Brederode dos Santos leu aos congressistas a "tese" que o marido, o Medeiros, escrevera no exílio de Genebra. Nela se apresentavam os três "dês" que o programa do MFA capturou um ano depois: descolonizar, democratizar, desenvolver. E a previsão que seria a tropa a derrubar o regime, uma coisa em que poucos na oposição acreditavam. Como escreveu nas suas memórias, quando Medeiros Ferreira regressou a Portugal já eram todos mais entusiastas do MFA do que ele. A democracia é um sistema recente na longa história da humanidade e foi concebida para adultos. Ora, em Portugal, não houve a sorte de ter tido muitos "adultos" na sala. No plano militar, Eanes e dois ou três conselheiros da revolução. Soares, a primeira AD de Sá Carneiro, Mota Pinto, Cavaco Silva, Sampaio em Belém, Passos Coelho e pouco mais, ou nada. O jornalista Joaquim Vieira reescreveu agora a sua biografia de Mário Soares de 2013. Tenho andado a ler o último volume, o quarto. Por que falo nisto? Porque o que vou lendo parece-me um bom resumo do estado a que chegámos em 2022. E no que nos tornámos, ou se tornaram muitos com outras obrigações políticas e morais perante o país, nestas quatro décadas. Sim, o PS aldrabou-nos.

João Gonçalves

União e solidão

Este fim-de-semana, os nossos emigrantes na Europa repetiram alegadamente o acto eleitoral de 30 de Janeiro. Digo "alegadamente" porque, talvez defeito meu, não dei por grande coisa sobre isto na comunicação social. O que se compreende. Temos estado demasiado ocupados com o nacionalismo alheio para acompanharmos os nossos lá fora. E estes também devem ter mais que fazer do que pensar no futuro imediato da pátria, devidamente acautelado pela inexpugnável maioria absoluta do PS e pelo presidente "de todos os portugueses".

João Gonçalves

Anatomia de uma catástrofe ambulante

RuiRio manifestamente não percebeu os resultados das eleições de 30 de Janeiro. É verdade que, por culpa sobretudo dos dois maiores partidos e dessa obsolescência chamada "Comissão Nacional de Eleições, o apuramento geral terá de esperar pela repetição da votação no círculo da Europa. É verdade que o PSD apresentou uma queixa-crime sobre isto, eventualmente contra alguns dos seus. E é verdade que esta vergonha não incomodou minimamente as "instituições". Ao ponto de o presidente da República até já ter sugerido indirectamente uma nova data para a posse do Governo.