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João Gonçalves

Não me venham falar do Natal

Entrou em vigor, a meio da semana passada, uma resolução do conselho de ministros onde ficou declarado o "estado de calamidade" até ao início da Primavera de 2022. Sobre os aspectos juridicamente controversos deste diploma, o bastonário da Ordem dos Advogados e professor da Faculdade de Direito de Lisboa, Luís Menezes Leitão, já escreveu o essencial. E o essencial é a implantação de um "estado de excepção", uma vez que as medidas "vão muito mais longe do que a própria Constituição permite em relação ao estado de emergência".

João Gonçalves

Paulo Rangel

O regime é um lugar estranho. Senão vejamos. Em 2014, o PS inventou uma modalidade de escolha do chefe que passava por alargar a "simpatizantes" o universo eleitoral interno. A pergunta a que os beneméritos tinham de responder não era a de quem dava melhor secretário-geral da coisa. Não. O dilema era entre quem seria o melhor candidato a primeiro-ministro. Seguro percebeu a mensagem. Mesmo sendo o secretário-geral em funções, desapareceu para nunca mais ser visto no partido. Há sete anos que Costa é, pois, indiscutível para a seita. E lá vai outra vez, em Janeiro, avaliar o que o país pensa dele. O PSD não adoptou este "sistema". O seu modo de vida era o congresso. O PS apenas conheceu um congresso menos previsível, o de 1981, no Coliseu de Lisboa. Os do PPD/PSD constituíram sempre momentos melodramáticos de entradas, saídas, choros, gritos e apoteoses televisivas. Aquilo a que o português comum designaria por "fitas". A partir de certa altura, porém, o congresso deixou de ser electivo e perdeu a graça. Os últimos líderes, desde Marques Mendes, passaram a ser escolhidos pelos militantes antes do congresso. A "novidade", no próximo sábado, é que os militantes do PSD vão decidir quem é o candidato da não Esquerda a primeiro-ministro. Ou seja, o candidato a substituir António Costa em São Bento. É claro que existe aquela coisa desagradável das "listas" de deputados. Algo que mobiliza o que de pior, e de mais abjecto, define a militância partidária: lugares. Todavia, Rui Rio chega a sábado com um défice inaceitável como líder da Oposição. Ainda agora permanece naquele absurdo tropismo de ser "agradável" a um PS que não lhe liga nenhuma. Opõe-se-lhe Paulo Rangel que tem exibido o cuidado de falar simultaneamente aos militantes e ao país. Não tem a ambição de ser perfeito, como Rio, que concebe a política como o primado da primeira pessoa. A dele. Não é uma questão de seriedade ou de dignidade. Ambos são sérios e dignos. Sucede que os quatro anos de Rui Rio não conseguiram que crescesse para um país que não domina, nem conhece, no seu individualismo doentio. Rangel disponibiliza-nos, pelo contrário, algum "mundo", atenção, curiosidade, densidade democrática. Sobretudo, intransigência e congregação no fundamental, o único caminho da autoridade política. E o fundamental, agora, é sabermos o PS de um lado, ao lado do PC e do Bloco, e a liderança da não Esquerda partidária, a do PSD, do outro e na frente. Para o país poder optar tranquilo e esclarecido em Janeiro.

João Gonçalves

"Está algo de podre no reino da Dinamarca"

Há seis anos, mais ou menos por esta altura, o país assistia à queda político-administrativa do XX Governo. Tinha legitimidade eleitoral - a coligação que o suportava ganhara a eleição legislativa e o primeiro-ministro foi nomeado nos termos constitucionais -, mas a esquerda parlamentar, liderada pelo segundo partido mais votado, o PS, entendeu que não. Um a um, pé ante pé, esperando pela sua vez, Catarina, Jerónimo, alguém da ficção PEV e, talvez, o sr. Silva do PAN foram encontrar-se numa salinha do Parlamento com o dr. Costa e o sr. César, onde assinaram umas papeletas. Quando a coisa ficou pronta, regressaram ao hemiciclo e derrubaram Passos Coelho. Se não fosse Cavaco, nem sequer as papeletas tinham assinado. Mas o presidente exigiu compromissos por escrito. Duraram uma legislatura.

João Gonçalves

O cartão

O PS reuniu em congresso. Foi em Portimão, para aproveitar as férias invariavelmente algarvias da maioria. Nada de excitante havia para discutir. Quando os partidos estão no poder, os congressos são redundantes. Os militantes e os "observadores" aproveitam para sondar os que exercem directamente o poder, seja no que for, para "meter cunhas". Outros deambulam em "marcação de ponto". O chefe aproveita para rever a matéria, onde se somam invariavelmente sucessos sobre sucessos, e para anunciar mais um bocado de paraíso para os próximos tempos. O paraíso chama-se "Plano de Recuperação e Resiliência". São milhões a distribuir como as rosas de Santa Isabel. O fim dos congressos electivos, decidido pelos principais partidos do regime, e aos quais os líderes chegam previamente ungidos por votações albanesas, retirou qualquer interesse específico aos conclaves partidários. O PS até se deu ao luxo de nem sequer revelar qual acabou por ser o universo eleitoral que manteve olimpicamente o secretário-geral. Nem sempre foi assim. Mesmo com Soares, os frisos dos congressos socialistas, até à derrota de Sampaio por Guterres, constituíam momentos politicamente interessantes. Sobretudo porque o grosso daquele pessoal político era interessante e possuía biografia. O sr. César, em Portimão, chamou para a mesa o PS dos pequeninos proto-herdeiros, uma lástima político-partidária quando pensamos nos idos de 70, 80 e 90. Pessoas que naquela altura eram consideradas pouco estimulantes, quando não desastrosas, agigantam-se, mortas ou vivas, diante deste conjunto de aparelhistas abeberados nos sofás da "juventude". Não é difícil a Costa emergir disto como um líder admirável, grávido de poder e autoridade. À que, por exemplo, nos últimos quinze dias o substituiu no governo, não ocorreu melhor "ideia" do que promover uma moção cujo "pensamento estrutural" consistia na singularidade de Costa: "só o PS tem Costa, uma das vozes mais respeitadas da Europa". Palavra de honra. Mas o momento mais grotesco estava reservado para aquela que, nas palavras do chefe, é a "comandante suprema do combate à pandemia", a dra. Temido. Mais uma que, daqui a dois anos, acrescentou, pode concorrer a líder (palavra de honra outra vez). Acabada de admitir no partido, subiu ao palco para Costa lhe entregar, em mão, o cartão de militante. Depois, exibiu-o à plateia como se lhe tivesse saído uma raspadinha premiada. Não anda longe da verdade. Um cartão do PS, nos dias que correm, é mais útil que as "chaves do Areeiro". Para além disso, a nova militante imagina-se subtil, uma característica de todos os outros noviços e noviças. O cartão coloca-a ao nível deles. E eles ao nível dela. Viva o PS.