Opinião

Um escol

No mais recente livro do escritor francês Michel Houellebecq, "Aniquilação", às tantas lê-se o seguinte: "Na cafetaria do aeroporto foi abordado por um esloveno, jovial e gorducho, um delegado da União Europeia. O homem não tinha nada de significativo a dizer, como todos os delegados da União Europeia".

A começar logo pela sra. dra. Ursula von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia, o exemplo acabado de quem não tem "nada de significativo a dizer", embora ela imagine piedosamente que sim. A dra. Ursula, aliás, segue de perto, mesmo sem seguir, a "regra" do nosso inconfundível primeiro-ministro, seu colega no Conselho Europeu. Deitar dinheiro para cima dos problemas. Neste caso, o "problema" é a Ucrânia. E até nós, por via desse extraordinário político de calibre nacional e internacional que é o sr. dr. António Costa (só precedido nestas matérias por outro Costa, o Afonso), deitámos para lá 250 milhões de euros de uma só pazada.

Onze horas depois de uma aturada viagem de comboio, Costa chegou a Kiev, onde Zelensky não parou de lhe admirar conspicuamente o casaco. E de lhe recordar que não há comparações verosímeis entre os procedimentos e tempos de adesão da Ucrânia à UE com, por exemplo, os de Portugal. Costa quis imitar Macron e a coisa não saiu bem. Nenhum destes "delegados" da União Europeia tem a coragem, e o dever político e moral, de dizer olhos nos olhos ao homem que não entra em nunca menos de 10 a 20 anos de vista.

Zelensky ainda convidou o inevitável Marcelo a ir lá, uma vez que a "segunda figura" já está apalavrada. Marcelo tinha ido para Timor com a raivinha adolescente de ainda não lhe ter sido dada a oportunidade de viajar até Kiev. E "vingou-se", sugerindo a data em que Costa ia. Um jogo floral que terminou com este a replicar que ia "no dia em que lá chegasse". Precisamente, estas três figuras constituem o cume do escol que nos pastoreia vai para sete anos, sendo o Silva o mais recente. Recorro a um termo muito caro ao meu saudoso professor de História Diplomática de Portugal, Jorge Borges de Macedo.

Mas por contraste. Para afirmar que não temos presentemente um escol. Que seriam "os melhores verificados como tais", a "minoria criadora". Acontece que o escol "só serve quando existe, funciona, actua ou realiza". Nunca enquanto farsa ou mera decepção eleitoral. O escol definido pela via eleitoral "pode ter uma percentagem de erro superior ao que a sociedade pode, sem perigo, suportar". Sujeito todavia à prova, o nosso escol falha permanentemente. Não tem nada de significativo a dizer além da pantomima política. Ao fim de quase meio século disto, é uma dor de alma.

*Jurista

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

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