Opinião

O Portugal que sobra de Lisboa

O Portugal que sobra de Lisboa

Data já de 1977 a minha entrada na faculdade. Nessa época não existia no Porto nenhum curso de Direito e entre Coimbra e Lisboa optei pela Universidade Católica de Lisboa numa altura em que nas faculdades oficiais era mais a agitação política que o ensino do Direito.

Nesse meu primeiro ano tive 260 colegas provenientes um pouco de todo o país, mas a esmagadora maioria deles viviam no eixo Lisboa-Estoril-Cascais. Como sempre fui de relacionamentos fáceis (salvo seja, nenhuma malícia nesta frase) passadas algumas semanas já tinha estabelecido contacto com quase todos. Ainda hoje não me espanto que mesmo sem os meus colegas terem qualquer tipo de rótulo na testa, foi com os que se tinham deslocado das regiões do Norte e do Centro que esses contactos evoluíram mais depressa para relações de amizade. No primeiro ano a única exceção foi talvez a do Palma Ramalho que sendo "sulista e elitista" era adepto ferrenho do F. C. Porto como eu (Palma Ramalho que é agora presidente do Novo Banco e por isso achei especial graça a esta mudança do verde para o azul na cor oficial dessa entidade bancária).

Situado o contexto, aquilo que me interessa contar desta minha experiência universitária em Lisboa é que o que verdadeiramente me espantou nessa frequência do 1.oº ano foi perceber que a esmagadora maioria dos meus colegas do eixo Lisboa-Estoril-Cascais, aos 17/18 anos, nunca tinham visitado o Porto. Especialmente estranho para mim, que antes desta ida já tinha estado em Lisboa, no Estoril e em Cascais variadíssimas vezes em passeios familiares, mas também em excursões escolares. E nos dois casos sempre com grande curiosidade minha em conhecer o país de que eu tinha ouvido falar, mas sempre quis conhecer de perto e pessoalmente.

Foi deste espanto que eu me lembrei quando li a crónica do Miguel Sousa Tavares na última edição do semanário "Expresso", cuja leitura recomendo. Resumindo o que lá se pode ler, MST agora com mais tempo depois de ter abandonado o jornalismo puro e duro, revelou como ficou encantado com as viagens que fez agora no Portugal que sobra fora de Lisboa, com destaques elogiosos para o que viu, por exemplo, no Porto, em Guimarães e Braga. Vale a pena ler para perceber o que acontece num país centralizado como o nosso. Este espanto que o MST (por acaso até nascido no Porto) sentiu quando viu realidades que não só não são tão recentes como isso, mas sobretudo desmentem ideias feitas em que o próprio incorria, mostram bem como é fácil cometer erros imperdoáveis quando se gere um país inteiro sem sair do Terreiro do Paço.

*Empresário

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