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Margarida Fonseca

#apagados

Valentina, Joana, Vanessa, Daniel, Henrique e Raphael, Leonor, Henrique Barata, Maria João, André Fernandes, David, Carlos, Tiago, Ruben e David, Samira e Viviane. Estes são nomes de crianças mortas por mães ou por pais. De forma hedionda. As notícias que facilmente se encontram na net são acompanhadas por fotografias nas quais todas surgem com sorrisos ou ar sereno. Como se quisessem apagar os relatos de violência de que foram vítimas. A elas, junta-se o sorriso de Jéssica, três anos, morta à pancada, drogada para não gritar, abandonada até morrer. Jéssica não foi morta pelos pais. Mas não lhes retira culpa, quanto mais não seja moral, por uma morte tão cruel. Jéssica já não mora em Setúbal. Jaz numa campa desde ontem. Jéssica terá sido assassinada por alguém que não tinha o seu sangue. Porquê? Nenhuma resposta será aceitável. Faça-se justiça. Por todos os sorrisos apagados.

Margarida Fonseca

#medoemar

O mar estava picado, não fosse hora de mudar a maré. O casal, com um menino de uns quatro anitos, falava alto, numa conversa aos picos como as ondas. Dividiam palavras como "parva", "estúpido", "palerma" e "sonsa" numa discussão sem nexo. De repente, o homem agarrou no puto, correu com ele até ao mar e, rindo alto, mergulhou-o uma, duas, ene vezes. A criança gritava e pedia clemência, com o olhar, à mãe que ficara na areia e também ria, até gritar para o homem parar. Ele parou. O menino chorava e tremia de frio, apesar de embrulhado numa toalha. O homem berrou: "És um medricas, moço. Não sais ao teu pai". "Medricas não és. Só palerma", atalhou a mulher. Ele contrapôs, sempre a falar alto: "O meu pai tirou-me o medo com mergulhos no mar". Fez-se silêncio. Só o menino, em soluços, murmurava: "Mar não, mar não".

Margarida Fonseca

#que...

À hora em que escrevo estas palavras acabo de editar o texto que fala de um bebé que morreu na Urgência do Hospital das Caldas da Rainha. Dizem que a falta de um dos três obstetras escalados poderia ter feito a diferença. Não sei. O que leio é que a Urgência de Obstetrícia tinha as portas fechadas a uma mulher grávida, com dores e que chegou a ser preparada para ser transferida para outro hospital. E que a cesariana feita, perante a reversão do seu estado, não foi suficiente para salvar uma criança. Leio que vão ser feitos inquéritos. Que a mulher está estável. Que o Ministério alega que há "constrangimentos" hospitalares difíceis de suprir. Que o sistema está doente. Que faltam médicos. Que os hospitais estão em rotura. Que há muita gente a recorrer às urgências. Que... tantos "que", senhores, quando apenas um tem de ter resposta: que caos é este?

Margarida Fonseca

#big

Entrei no café quando o televisor tinha o som absurdamente alto. Dois homens discutiam. Um falava em caca (traduzi), outro chamava-lhe boi. Reconheci o programa e os protagonistas da contenda. Um é o ator Nuno Homem de Sá e o outro um antigo futebolista que agora fala de famosos chamado Gonçalo Quinaz. Nas mesas, havia quem desse gargalhadas. E quem abanasse a cabeça num gesto de reprovação. O televisor emitia os gritos de colegas no programa, o "Big Brother", galinha dos ovos de ouro da TVI. Os homens da discórdia dividiam apoios no café. Reparei em três crianças sentadas junto a adultos. Só uma olhava para a cena. Ao lado, uma mulher afiançava: "Dava-lhe no focinho". A criança riu. "Os bois têm focinho?", perguntou. Como ninguém respondeu, levará, com certeza, a pergunta para a escola. É a chamada "big" educação.

Margarida Fonseca

#mazelas

Soube-se ontem que no, final de março, eram mais de 1,2 milhões de portugueses sem médico de família. Eu, que me considero uma sortuda por ter um há 25 anos, não sei o que faria se ficasse sem assistência clínica familiar ou nem tivesse as consultas abertas dos centros de saúde. O que eu sei é que os números publicados no Portal da Transparência do Ministério da Saúde indicam um agravamento na falta de médicos de família e que são os valores mais altos desde 2014. Esta poderá ser uma explicação para o aumento de pessoas que recorrem às Urgências hospitalares, numa altura em que persiste a covid lado a lado com gripes. Falar-se em "falsas urgências" é não saber o que sente quem não tem alternativas nos centros de saúde. E, mesmo que se trate de uma pequena mazela, será pequena para quem assiste, mas não para quem sofre.

Margarida Fonseca

#velas

A s imagens de famílias a abandonar as suas casas em Velas, cidade da ilha de São Jorge, nos Açores, são mais um murro na nossa emoção que já anda abalada. A crise sismovulcânica obriga a evacuação preventiva, com a terra a tremer e a possibilidade de uma erupção. Pegar em malas e deixar uma vida para trás custa muito, porque, sem certezas de regresso. São especialistas que arriscam apontar a imprevisibilidade de um fenómeno desta natureza, avisando que a situação pode arrastar-se por meses. Porém, procurar um lugar seguro é a decisão mais acertada porque o perigo de derrocada é real, sobretudo nas fajãs que em São Jorge são muitas. E se até agora as dimensões parecem longe da tragédia de 1980 nas ilhas Terceira, São Jorge e Graciosa onde um terramoto causou 71 mortos e mais de 400 feridos, a verdade é que esta crise veio aumentar o nosso cansaço emocional.

Margarida Fonseca

#memória

Ao ver imagens de Kiev lembro sirenes e explosões ouvidas, ainda menina, em Angola. Lembro os abraços e as lágrimas de minha mãe quando se despedia dos meus irmãos que fizeram a guerra colonial. Lembro a alegria que tinha sempre que eles vinham a casa e me traziam marmelada em tubos. Lembro o adeus à cidade onde nasci, na condição de refugiada filha de pais portugueses. Lembro a solidariedade de estranhos que não hesitaram em dar roupa e comida, um palavra de conforto, um abraço. Lembro e choro. Não há boas ou más guerras. Há guerra. E ela faz sofrer inocentes, seja qual for a sua nacionalidade. Portugal abriu as portas a ucranianos que fujam ao conflito. Aqui estarei. Lembremos que há, nas nossas escolas, crianças ucranianas e russas, que temos trabalhadores russos e ucranianos, que conhecemos pessoas de ambos os lados. Eles não passaram a ser amigos e inimigos. Apenas vítimas.

Margarida Fonseca

#saudade

Soube ontem que a minha vizinha do rés do chão morreu. Soube através de uma mensagem do condomínio. Primeiro senti um arrepio. Depois fez-me falta os barulhos do seu quotidiano. Foi um sentimento estranho porque a nossa convivência era fraca. Em 20 anos a viver no mesmo prédio foram mais os ralhetes do que conversas normais de vizinhança. Era uma mulher atormentada pela viuvez, pela ausência de família, pela incapacidade de aceitar os outros. Mas bastava-lhe atenção de minutos para se derreter em palavras doces. A dona Tina habituou-me a ouvir, em alto som, o terço todos os dias e a missa todos os domingos. E a vê-la à volta dos canteiros ou a varrer o pedaço do pátio comum. Deixei de a ver em dezembro. Mês da sua morte, junto da filha, longe de nós. As janelas fechadas trazem-me, agora, saudade. Os vizinhos também são família.