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Miguel Guedes

O último dia de ontem

Perdidos no tempo, sensação intruja de que as coisas se sucedem com sentido, que estamos em controlo, que somos poder. Que mandamos no devir, que ele se submete, faz figas e nós desatamos, dá nós mas nós desfiamos. Omnipotentes seguimos, sempre a lembrar-nos, queridos, da nossa pequenez. De como somos formigas no universo, vírgulas no tempo, lapsos que preenchem frestas. Nunca desarmamos de tão humildes. Passou o dia em que nos despedimos de um ano marcante e anónimo, repleto de coisas que não foram feitas e outras que se perderão para sempre. Hoje são só despedidas e votos. O último dia foi ontem.

Miguel Guedes

Natal, a última absolvição

Hoje, amanhã e - com sorte - no domingo. Três dias que são de paz, politicamente neutros, repletos de pequenos actos de armistício e pazes feitas, mas que, desde o rebentar da pandemia, são tudo menos irrelevantes. A partir de segunda-feira, teremos a contabilização das garfadas e facadas de Natal como se de espingardas a disparar entre trincheiras se tratassem. Tudo ao molho e com pouquíssima fé em Deus, a contar infectados, internados e intensivos. A contar as mortes. A apontar as culpas.

Miguel Guedes

A irresistível cabala

A fuga de João Rendeiro à justiça, anunciada pelo próprio como uma ida sem volta, acabou. Cumpre-se o mito do eterno retorno. O fugitivo não se soube esconder, o que retira algum encanto à sua competência e mancha as expectativas de que o mistério estaria para durar. Três meses volvidos, depois de deixar Lisboa a 12 de Setembro, ei-lo apanhado num quarto de hotel de 5 estrelas, em Durban, oculto entre o luxo de umas cortinas que já vagamente havíamos visto, que o escondiam dos olhares policiais e do mundo, tal como ele é, perseguidor.

Miguel Guedes

Alimentar o monstro

O passo de saída de Eduardo Cabrita do Governo é o último acto de um daqueles puzzles tardios que se começam a construir com a certeza do lugar onde se coloca a última peça. Sendo óbvio o desenlace, todo o tempo em que foi evidente a insustentabilidade do peso da manutenção de Cabrita só foi útil para provar que a teimosia não é sentimento que se abandone ao primeiro engulho, exerce-se até às últimas consequências. Um exemplo, em salvo-conduto, para todos os ministros inábeis ou incompetentes.

Miguel Guedes

A Igreja confessa

O episcopado francês demonstrou "vergonha" e pediu "perdão" às mais de 300 000 vítimas de pedofilia, menores abusados em instituições da Igreja Católica francesa entre 1950 e 2020. Cerca de 216 mil crianças e menores, 80% dos quais masculinos, foram abusados ou agredidos sexualmente às mãos de clérigos católicos ou religiosos. As conclusões do relatório da comissão independente referem-se "apenas" aos últimos 70 anos e deixam no ar o que terá sucedido na primeira metade do século XX e, à medida que recuamos no tempo, a realidade pérfida de tempos idos da escola católica de virtudes.