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Pedro Ivo Carvalho

Não matem a galinha

O que podia correr bem está a correr muito bem e o que podia correr mal está a correr muito mal. Comecemos pelas boas notícias: o mercado do turismo pós-pandemia comprovou o que se esperava e a tremenda fome de viajar de todos quantos ficaram dois anos agrilhoados a uma doença também está a beneficiar Portugal, a tal ponto que as viagens e as dormidas nos primeiros quatro meses do ano já nos colocam praticamente ao nível de 2019. Mas depois os turistas chegam ao Aeroporto de Lisboa e estão três horas para cumprir burocracias, em condições degradantes que projetam a pior imagem possível de um país que quer atrair visitantes e gerar valor económico.

Pedro Ivo Carvalho

Marcelo (também) é o povo

Não foi a primeira vez - nem será certamente a última - que Marcelo Rebelo de Sousa aproveitou uma data redonda para exaltar a fibra do povo português. Fá-lo, de resto, com uma naturalidade e recorrência tais que, por vezes, se torna entediante receber tantos elogios e perceber que, em demasiadas dimensões, Portugal não tem evoluído à mesma velocidade dos predicados com que o presidente adoça os ouvidos da nação. Mas o contexto político deste 10 de Junho obriga a que olhemos para as palavras do chefe do Estado com outro alcance. Ao dizer Portugal é o seu povo, ao enfatizar que foi a "arraia-miúda" que nos alcandorou à condição coletiva em que nos encontramos, Marcelo também está a dizer "o meu poder emana do povo" (o presidente é o único titular de um cargo político eleito por voto direto) e é a ele que devo lealdade e compromisso, independentemente das circunstâncias. Eu (também) sou o povo, simplificando o recado presidencial.

Pedro Ivo Carvalho

100 dias no nosso bolso

O balanço geopolítico da guerra na Ucrânia é o que menos importa, agora que passaram 100 dias do mais violento ataque, em décadas, às ideias de paz, democracia e direitos humanos na Europa. A tragédia humanitária e social que atingiu milhões de cidadãos ucranianos indefesos não se pode comparar, em cicatrizes e sofrimento, com mais nada, e essa deve ser sempre a nossa bússola moral no entendimento que façamos do pós-conflito. Mas esta nova ordem mundial encerra outras privações na vida de quem está demasiado longe dos mísseis mas demasiado perto das balas económicas perdidas.

Pedro Ivo Carvalho

TAP: a verdade não dói nada

Quero prestar a minha pública homenagem ao presidente do Turismo de Portugal, Luís Araújo, por ter tido a honestidade intelectual para verbalizar o sentimento que há anos invade os corações de todos aqueles que não acreditam (nunca acreditaram) na estratégia de sobrevivência da TAP, por um lado, e na sua pretensa missão de servir todas as regiões, por outro. Não estamos habituados a tanta franqueza num país que vive de protocolos e aparências.

Pedro Ivo Carvalho

Sejam muito bem-vindos

Não é fácil distinguir clarões de luz por entre as trevas da guerra, especialmente quando o palco que se pretende iluminar é uma Europa que está, de novo, a enfrentar uma prova de esforço para a qual não estava preparada. Mas essa luz existe e vemo-la espraiada na generosidade das nações e dos cidadãos que, de um dia para o outro, nos fizeram esquecer que este era, não há muito tempo, o continente que segregava refugiados pela sua proveniência, patrocinando uma mercearia diplomática demasiadas vezes paga em vidas humanas. A forma como essa evolução aconteceu, em países como a Polónia, a Hungria e a Grécia, que fizeram vista grossa a sírios e iraquianos, é merecedora de elogio.

Pedro Ivo Carvalho

Democracia para o lixo

Não há outra forma de qualificar o episódio que manchou as mais recentes eleições legislativas: triste, demasiado triste. Graças a um acordo de cavalheiros não cumprido entre PSD e PS, com o alto patrocínio da Comissão Nacional de Eleições, foram deitados ao lixo 157 mil votos de emigrantes. Um desfecho vergonhoso, desrespeitador da vontade popular de milhares de portugueses que, mesmo à distância, não se furtaram a pronunciar-se sobre o futuro político do país; e revelador de uma tremenda falta de sentido de Estado dos intervenientes.

Pedro Ivo Carvalho

Esquerda, Direita, volver

Esquerda. PCP e BE não vão recuperar tão cedo do atordoamento eleitoral pós-maioria absoluta. Porque continuam a tentar sarar feridas autoinfligidas com uma narrativa trôpega: a de que foi o PS que lhes roubou eleitorado (não era suposto?), ao enfatizar um cenário de bipolarização. Evitando reconhecer que foram eles que se espalharam ao comprido quando decidiram chumbar o Orçamento do Estado, ao bater insistentamente no peito ideológico e rasgando as vestes por convicções inegociáveis cuja justeza nem mesmo os seus eleitores reconheceram na hora de se mudarem para o regaço cor de rosa. Passada a fase da catarse interna, há que definir uma de duas estratégias: adotar a rua como palco privilegiado para o combate a uma maioria absoluta que vai navegar na bonança da libertação pandémica e dos milhões da bazuca europeia; ou reforçar no Parlamento a sua relevância na balança partidária, com tenacidade e espírito crítico, esperando que, em outubro de 2026, e cumprindo-se a mais longa legislatura da democracia, ainda ninguém se tenha esquecido de como se escreve a palavra geringonça. Que é como quem diz alternativa.

Pedro Ivo Carvalho

A ressaca do número 10

As notícias que, por estes dias, vamos lendo sobre o emaranhado de mentiras, desculpas esfarrapadas e provas avulsas de desfaçatez do Governo britânico a propósito da organização de festas em Downing Street em períodos de fortes restrições pandémicas vão parecendo mais resquícios criativos da série "The Crown" do que episódios inspirados em factos reais. Mas, no Reino Unido, a verdade é como as garrafas vazias das festas covid: aparece sempre no final.