Opinião

Regresso à anormalidade

Regresso à anormalidade

Enquanto uma parte substancial do país segue a galope em direção à normalidade, há um outro Portugal que não desconfinou: o dos serviços públicos. A patriótica eficácia de planeamento no programa vacinal não contagiou o restabelecimento das rotinas nas repartições e lojas do cidadão.

Voltamos ao trabalho presencial, aos estádios, ao cinema, reabriram negócios, largamos as máscaras na rua e, apesar disto tudo, garantir o agendamento da emissão ou renovação do cartão de cidadão ou do passaporte continua a ser um doloroso e irritante exercício de cidadania falhada. No início, era compreensível (a pandemia tirou-nos o chão), pelo meio, fomos dando o benefício da dúvida (o sistema está a ajustar-se e a recuperar o tempo perdido, pensámos), mas eis que, quase dois anos após a declaração pandémica, continuamos agrilhoados. Sobretudo nas grandes cidades, os congestionamentos e filas manter-se-ão até ao final de outubro. A correr bem.

Há dias, um dirigente sindical acusou a ministra da Modernização do Estado e da Administração Pública, Alexandra Leitão, de ter berrado com os funcionários da Loja do Cidadão das Laranjeiras, depois de se ter apercebido de que havia uma alma plantada há 11 horas para tratar do passaporte. A ministra garante que não levantou a voz e que se limitou a lembrar aos funcionários a necessidade de aplicar a lei e que, no caso em apreço, não havia razões objetivas para o cidadão não ser atendido de forma expedita. Nestas coisas já sabemos o que esperar: os sindicatos dirão sempre que há funcionários a menos (o que parece mais ou menos unânime), o Governo garantirá sempre que está a fazer tudo o que pode para mitigar o aborrecimento dos portugueses (foi ontem anunciada, entretanto, a Loja do Cidadão online, que verá a luz do dia em... 2023). E, no final, como também acontece sempre, sobramos nós. Por isso, se for preciso berrar, afinemos as vozes, em particular as dos partidos da Oposição, que, com a honrosa exceção do PCP, parecem andar alheados desta dimensão estática do confinamento. O país não pode verdadeiramente fazer o caminho da normalidade se o Estado continuar a comportar-se como um paquiderme que vê toda a gente a levantar-se da sala e continua refastelado no sofá enroscado nos vírus pré-pandémicos.

Diretor-adjunto

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