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A. Cunha e Silva: "O vácuo é uma tentação"

A. Cunha e Silva: "O vácuo é uma tentação"

Adepto do "diálogo fértil e na coexistência das artes", A. Cunha e Silva sintetiza o seu longo percurso no volume "A musicalidade da pintura". "Sem as artes que me rodeiam, exprimia um gorgeio, mas não um canto", afirma o antigo diretor do Conservatório de Música do Porto.

A dedicação plena à música até aos 65 anos impediu-o de dedicar-se tanto tempo como gostaria às restantes artes, mas de então para cá Cunha e Silva tudo tem feito para recuperar esse período. Através da pintura, da escrita e da fotografia, o histórico violinista reafirma uma carga telúrica que cada vez se exprime de forma "mais depurada, mais simbólica, mais tranquila e expressiva".

A sua obra é fértil no diálogo com outras artes. Não acredita na separação entre a música, a pintura ou a poesia?

Revejo-me mais no diálogo fértil e na coexistência das artes.

O que perdemos por compartimentar excessivamente as artes?

Perdemos equilíbrio de sensibilidades: ouvir, ver, agir.

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No prefácio de "A musicalidade da pintura", Dora Iva Rita sublinha que a criação musical e pictórica têm mais em comum do que poderíamos pensar à primeira vista. É mesmo assim?

Violinista, músico de formação académica, esta aprendizagem reflete
a prática diária com a interpretação de autores compositores musicais desde o período barroco ao contemporâneo. Julgo que a análise da Dora Iva Rita se manifesta na esfera desta imensidão.

Curiosamente, não há tantas referências visuais alusivas à música nos seus desenhos e pinturas. Porquê?

Ao longo do meu trabalho, curiosamente, o que acontece é que em cada ciclo pelo menos aparecem instrumentos musicais representados.
Porém, um ciclo se manifestou em absoluto na exposição "a música" que realizei no Centro Cultural do Alto Minho.

O que é cada uma das artes que pratica é capaz de oferecer-lhe de único?

A música (os recitais, os concertos), se não for gravada, é quase uma arte efémera. A minha passagem pela fotografia foi experimental (ganhei vários prémios nacionais e um ibérico) funcionou como uma expressão compulsiva, sujeita a expressões vivenciadas , sobre na ilustração de poetas portugueses e na obra de Cândido Lima - os autómatos da areia. A pintura que faço é o resultado dessa aprendizagem, já que não tenho formação académica nem na área das artes plásticas nem na área da literatura.
Cada uma das artes que pratico oferece-se oriunda, conjuntural de um processo - só o momento de execução é único e soberano.

Ser obrigado a escolher apenas uma das artes a que se dedica seria um cenário impensável para si?

Para além da música que faço desde os sete anos de idade, essa foi sem dúvida a expressão que me ocupou até aos 65 anos de vida. Não faço escolhas premeditadas, digamos que sou uma espécie de escolhido. Por isso, um cenário único é impensável, porque o empenhamento é transversal.

O que a passagem dos anos trouxe ao seu processo de criação artística?

A passagem dos anos, o usufruto da vida, trouxe uma carga telúrica que agora se manifesta mais depurada, mais simbólica, mais tranquila e expressiva.

Há autores que justificam o seu apelo às artes pela procura do Belo; outros aludem a uma espécie de busca interior. E no seu caso, o que o leva a abraçar diferentes artes?

O meu universo criativo - a fotografia,a pintura, a literatura - obedece a impulsos, sempre tive apetência pela sedução da beleza, da cor, da luz, da temática humana e expressiva. As várias artes que misturo no meu quotidiano, costumo defini-las como um processo de trabalho na horizontal, sobreposto, as linguagens misturam-se - o modelo nunca é vertical.

A propósito do seu trabalho, Manuel Dias da Fonseca citou um poema de René Char onde se afirma que "todo o lugar é para a Beleza". Não há espaço para a escuridão no que faz?

Quando era criança tinha dois pesadelos típicos. Um manifestava-se a entrar num túnel - a escuridão total. No outro, levantava voo e sobrevoava o espaço, a espaciologia ampla e grandiosa - a beleza. Destes dois arquivos, guardo os meus medos (escondo-os) e liberto o meu conceito de beleza (expondo-os).

Corrobora da visão de que a música é a mais completa das artes?

A música tem um efeito equilibrante, é a mais abstrata das artes, mas por isso também a mais imagética.

Da mesma maneira que podemos encontrar a musicalidade da pintura, é lícito procurarmos atributos complementares, quando não opostos, na maioria das artes?

As artes atuais ou os vários agentes criativos procuram sempre ir mais longe no experimentalismo, mas o vazio, o silêncio, a ausência de cores ou sons, a pausa também se manifesta como presença ilustrativa de uma imagem ou de uma voz - o vácuo é uma tentação.

Na pintura, na música ou na poesia que cria, é sempre o mesmo eu que se manifesta?

No meu caso é sempre o mesmo eu que se manifesta. Não tenho heterónimos.

Será a musicalidade da sua obra plástica "uma forma de encontrar a sua sublimação", como defende Alfredo Barros?

O pintor Alfredo Barros conhecia-me bem. Fomos amigos e cúmplices artísticos desde a juventude. Quantas milhares de horas do meu trabalho como músico foram de carácter interpretativo (não fui compositor) e, por isso mesmo ,acontecimentos efémeros, diluiram-se no tempo. Lembro -me que, em 1969, num trabalho de pesquisa " Achegas para um Dicionário de figuras de Matosinhos" escolhi um pensamento de Fernando Pessoa" ... um dia virá o dia em que não direi mais nada. Quem nada diz nem faz não dirá nada " . Esta máxima passou a ser a minha bússola, a minha sombra, a minha luz. Se me procurarem aqui, neste mistério, encontram -me. É este o significado da "sublimação " que decifra o Alfredo Barros.

Há um lado de evidente mistério nos seus desenhos e pinturas. Acredita que esses trabalhos não se esgotam na realidade que representam?

Procurem - me nos meus desenhos!

O território da infância é muitas vezes evocado no seu trabalho. 0 ato de criar é, de algum modo, uma tentativa de voltar a acercar-se desse período?

O território da infância é um espaço marcante e por vezes conivente. Ele ocupa lugar nas nossas reminiscências ocultas um espaço aberto para o silêncios visuais e outros.

Matosinhos é, a todos os títulos, um lugar muito especial para si. A cidade em que nasceu e onde vive influencia mais o homem ou o artista?

Sempre vivi em Matosinhos - tenho 81 anos - só mudei de esquina e ainda vivo na mesma rua. Acho que o lugar e nasci tem um forte pendor de formação. Por exemplo, não fui ao mar, não fui pescador, mas, do lado de cá do mar, tenho os olhos marejados de espuma.

Associa a criação musical, artística e poética a um determinado período do dia?

Chego a escrever às escuras, a pensar às escuras... qualquer lugar me absorve.

O seu currículo musical é particularmente impressionante. Foi essa dedicação plena à música que impediu que, nesses anos, a prática da pintura ou a escrita tenham ficado para segundo plano?

Comecei a publicar em 1969, mas abandonei por imposição dos compromissos. Mas guardava tudo, anotava, alimentava um estado de posse liberto de amarras. Aconteceu com a aposentação. Foi só ir ao baú.

No âmbito musical, chegou a fazer digressões à Rússia, China e Índia, enquanto membro da Orquestra Gulbenkian. Quão marcante foi esse contacto com culturas tão fortes e distintas como essas?

As viagens que realizei com a Orquestra Gulbenkian foram fundamentais para a minha formação humanitária e social. Mas também dentro dos parâmetros artísticos plásticos, trabalhei durante muito tempo desenho a tinta da China, depois acrescentando a técnica do pastel seco. Este ciclo evidenciou-se após as viagens.

Conheceu por certo grandes figuras (não necessariamente as mais célebres) ao longo da sua vida. Consegue destacar as que o impressionaram de tal forma que ainda hoje influenciam a sua forma de ver a realidade?

Após o 25 de Abril em Portugal, as várias potências mundiais enviaram o
melhor do seu produto cultural. A União Soviética mandou os bailarinos o Kiev, que eu como músico acompanhei. Os Estados Unidos mandaram a ópera " Porgy and Bess" que eu como músico acompanhei. A Inglaterra mandou Margot Fontaine e o bailarino russo Nureyev, que eu acompanhei. Poderia citar imensos casos, porque fui violinista ativo da Orquestra Sinfónica do Porto desde os 14 anos de idade.

À distância destes anos todos, como vê os seus primeiros esforços de criação artística extra-música?

Naturalmente que têm um aspeto de embrião mas algumas coisas ainda são visíveis no ativo das mãos.

O que seria a sua vida sem a(s) Arte(s)?

Sem as artes que me rodeiam, que me envolvem, sentir-me - ia como uma rã num charco - exprimia um gorgeio, mas não um canto.

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