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António Amargo, um escritor que urge devolver ao futuro

António Amargo, um escritor que urge devolver ao futuro

Os escritos quase esquecidos de António Amargo (1895-1933) foram reunidos num volume da Xerefé Edições, que coloca em evidência o caráter livre do seu pensamento.

Homem do seu tempo, profundamente empenhado nas causas e lutas que marcaram a época em que viveu, António Amargo (pseudónimo literário de António Correia Pinto de Almeida) foi também (ou sobretudo?) alguém com a sapiência suficiente para saber que a passagem dos anos iria ter um efeito naturalmente devastador sobre os seus escritos, como acontece, aliás, com a generalidade das criações.

Por isso, sempre trocou de bom grado a pompa e a verborreia tão típicas de uma certa "inteligentsia", erradamente convencida acerca da sua pretensa imortalidade, por uma humildade que se expressava em permanência através do sentido de humor e da desvalorização contínua das suas próprias qualidades.

Dessa estratégia invulgarmente desempoeirada para a realidade lusitana resultaram textos que, pese embora partissem quase sempre da realidade que o circundava, conseguem, ainda hoje, dialogar connosco.

É certo que essa identificação que ainda hoje sentimos ao ler as suas desenfadadiças crónicas se deve também ao facto de, ao contrário do que insistimos em fazer-nos crer, não mudámos assim tanto enquanto povo ao longo do último meio século.

Na sua mira estava um "fanatismo religioso" que se manifestava a todo o instante. "Adora-se hoje um Deus supremo, amanhã um ídolo de frágil barro, depois um Júpiter tonante, depois ainda um simples mortal", num desvario adulativo sem fim à vista.

A partir da sua natal Figueira da Foz, Amargo observava o Mundo com a desfaçatez própria de quem entendia que a sisudez e a sacralização dos poderes eram o oposto do que a vida devia ser.

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Exemplarmente secundados pelas inventivas criações de quatro ilustradores contemporâneos - André Ruivo, Marta Madureira, Rita Carvalho e Sebastião Peixoto -, os textos de António Amargo equivalem ainda hoje, como bem sintetiza Ana Biscaia, ao ato de abrirmos "uma porta muito luminosa".

A descrição que fazia dos "tipos e manias" abundantes na sociedade de então, do D. Juan ao diletante, arranca-nos sem dificuldade um sorriso largo e até mesmo as suas observações pertinentes sobre a tríade maldita "fome, peste e guerra" apresentam ligações com a realidade atual, no mínimo, perturbadoras.

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