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Dora Nunes Gago: "Em Macau as raízes tornam-se flutuantes"

Dora Nunes Gago: "Em Macau as raízes tornam-se flutuantes"

Os dez anos de permanência em Macau deram a Dora Nunes Gago material humano e literário abundante. O resultado é "Floriram por engano as rosas bravas", livro de narrativas curtas publicado pelas Edições Húmus.

É através de "um caudal de histórias para contar" que se lê "Floriram por engano as rosas bravas", verso de Camilo Pessanha que inspirou Dora Nunes Gago para o seu novo livro.

Nesse "mosaico antropológico vivo", a autora situa histórias nas quais o Oriente surge bem distante dos estereótipos com que o resto do Mundo ainda vê aquela realidade.

São dezenas de contos breves ambientados na sua esmagadora maioria em Macau e que revelam a singularidade de se viver num território onde boa parte da população vive em trânsito.

"Do ponto de vista afetivo, isto gera uma grande instabilidade. Há a sensação de que tudo é fluído, nada permanece, tudo é demasiado breve", afirma.


Este livro representa o fechar de um capítulo em relação aos anos em que viveu em Macau?

Confesso que não tive essa consciência, enquanto o fui escrevendo. Mas sim, é verdade, representa o fim de um ciclo de dez anos de vida em Macau, embora isso tenha sido decidido posteriormente.

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Não deverá ser certamente coincidência o facto de o primeiro conto ter por título "Partida" e o último "Chegada". Até por isso, escrever este livro foi uma espécie de viagem, porventura mais mental até do que física?
Com efeito escrever este livro foi uma viagem que envolveu as duas componentes a mental e a física. Iniciei-o em fevereiro de 2016, na pausa do Ano novo Chinês, quando estava a iniciar-se o Ano do Macaco. Tinha começado antes. A primeira fase da escrita envolveu as viagens que fui fazendo, o que nelas fui aprendendo e vivendo. Depois, no fim, a viagem foi realmente mais mental, aliás, durante estes últimos anos foi impossível sair de Macau. Só mesmo no fim, decidi o último conto que reescrevi várias vezes e com desfechos distintos. Acabou por prevalecer a ideia da partida.


Como aponta José Cândido Oliveira Martins no prefácio, o livro apresenta "um mosaico antropológico e cultural vivo, um quadro plural que nos permite o entendimento do mundo de hoje em tantas das suas relevantes facetas e questões, da mais gritante atualidade". Será, por isso, redutor cingirmos esta abordagem que faz a um território longínquo como algo distante de nós, e não apenas do ponto de vista geográfico?

Penso que sim, que é redutor considerarmos apenas a abordagem a um território longínquo. Aliás, Macau tem sido um lugar muito especial, para onde tem confluído gente de muitas nacionalidades. É um espaço habitado por muitas comunidades, por muitas culturas e línguas. Embora a propagada ideia do encontro de culturas seja muitas vezes um chavão, um estereótipo. Não quer dizer que não existe algum "encontro", mas existem também muitos desencontros que acabam por desaguar na tolerância, muitas vezes até na indiferença. É um mundo pequeno, mas cheio de mundos que coexistem paralelamente. Além disso, é uma porta de entrada na Ásia. Permite conhecer não apenas a China, mas os outros países do Sudeste Asiático (Malásia, Tailândia, Camboja, Vietname, Laos...) e isso aumenta o acesso a esse "mosaico antropológico e cultural vivo". Permite ver, no fundo, as semelhanças que existem no seio das mais gritantes diferenças. E essas semelhanças prendem-se com aquilo que nos irmana como pessoas, a nossa humanidade ou desumanidade, as linhas com que em cada ser se esboça a sua própria condição humana e que são sempre fruto do tempo histórico que nos coube viver.

Macau tende a ser cada vez mais "aquele farrapo de pátria perdida"?

Macau é uma Região Administrativa Especial e creio que o seu percurso creio que será sempre de uma mais intensa integração na China. Haverá, provavelmente, uma tendência para uma homogeneização que fará, cada vez mais, com que deixe de ser o "farrapo de pátria perdida", para ser uma parte de um corpo.

Apesar de, no imaginário ocidental, tendermos a associar o Oriente a uma dimensão exótica ou onírica, os estados de alma dominantes no livro são a frustração, o desespero, a desilusão ou o cansaço. Houve um esforço deliberado de desmistificação da sua parte?

Na verdade, não houve esse esforço. O que fiz foi transmitir muito do que senti, vi se os outros sentirem e viverem. Suponho que a dimensão onírica associada a um exótico talvez pitoresco que se associa ao Oriente talvez esteja mais próxima da perspetiva de quem contacta com certas realidades de forma passageira, devido a breves viagens, a turismo. Quando se vive durante uma década no Oriente a imagem será sempre outra, principalmente se estivermos atentos aos que nos rodeia, se exercermos a alteridade e nos tentarmos aproximar do "outro".

Ainda subsiste uma visão muito estereotipada do Oriente na Europa?

Sim, creio que sim. Os estereótipos que, de acordo com a Ruth Amossy são o "prêt-à-porter de l"esprit", ou seja o pronto a vestir do espírito, sendo também elementos de mediação para apreendermos o mundo que nos cerca continuam a existir muito na Europa. O Orientalismo de Edward Said continua atual. Talvez não haja muito a noção de que o Oriente é composto por múltiplos mundos, muito diferentes. A própria China, por exemplo, é um país enorme que alberga em si muitas diferenças...


Algumas das características que são frequentemente apontadas às sociedades orientais há muito, como a solidão exacerbada ou a dependência extrema do jogo ou da dimensão virtual, estão também cada vez mais presentes no resto do globo. Já não faz sentido um olhar de estranheza para essa realidade?

Essas realidades das dependências e da solidão tornaram-se cada vez mais globalizadas e não são, neste momento, particulares das sociedades orientais. Aliás, o governo chinês tem tomado medidas para eliminar as dependências dos jogos eletrónicos, pois segundo creio, neste momento, os jovens apenas podem jogar durante cerca de umas duas horas aos fins de semana.
Quanto à solidão, é cada vez mais o fruto do mundo onde vivemos, pautado pela competitividade, pelo narcisismo, pelo individualismo. Aliás, o filósofo sul coreano Byung Chul Han faz análises muito interessantes sobre essas questões nas suas obras.


A plataforma multicultural que é Macau torna-a um espaço habitado em larga medida por pessoas em trânsito. Crê que essa ausência de pertença ao território está na base do sentimento de exílio que muitas vezes se apodera de quem lá vive?

Sem dúvida, Macau é um lugar de trânsito. As pessoas normalmente iam por dois anos, depois iam renovando ou contratos ou não. Mas é o lugar onde as raízes se tornam flutuantes como as das flores de lótus. Do ponto de vista afetivo, isto gera uma grande instabilidade. Há a sensação de que tudo é fluído, nada permanece, tudo é demasiado breve.


No derradeiro conto do livro exprime algum desencanto e pessimismo pela manutenção de Macau como ponte de ligação entre culturas. O sonho acabou?

Desde Janeiro de 2020 essa ponte foi interrompida devido à pandemia. A entrada de estrangeiros em Macau passou a ser proibida, medida que continua em vigor, não se sabe até quando. Isto é válido não apenas para turistas, para também para os trabalhadores estrangeiros não residentes. Se tiverem de sair do território, não poderão regressar, mesmo tendo o emprego e a vida toda em Macau. Não sei se o sonho acabou mesmo definitivamente, mas já há uns anos que foi suspenso.

Apesar do esforço que fez desde a primeira hora, capturar a essência de uma realidade com tantas matizes como a de Macau é um esforço inglório?

Não creio que seja um esforço inglória. Mesmo que não se consiga apreender tudo, há sempre uma parcela dessa essência que fica em nós e que podemos partilhar com os outros. Penso que a literatura é muito isso: partilha, dádiva.


Quão importantes foram as histórias, reais ou inventadas, nos quase 10 anos em que viveu em Macau?

Foram de muita importância. A literatura, nas suas várias vertentes, incluindo a da criação, sempre foi uma espécie de farol que ilumina rumo a um sentido para a vida. Neste caso, as histórias reais foram os alicerces, embora depois tinham sido temperadas com algumas pitadas de ficção. Alguns contos foram baseados em notícias de jornais (foi o caso de "o suicídio", "o anúncio", "a última fronteira"...), em acontecimentos vividos por mim ou testemunhados, tanto em Macau, como nas viagens que fiz.


Ficou a compreender melhor o interesse pelo Oriente que sempre manifestaram figuras como Camilo Pessanha ou Maria Ondina Braga?

Sim, sem dúvida. Sobretudo a de Maria Ondina Braga, uma grande escritora, muito esquecida, mas cuja obra vai finalmente ser reeditada este ano pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, por uma equipa que integro, coordenada pelos Professores José Cândido Oliveira Martins da Universidade Católica e Isabel Cristina Mateus da Universidade do Minho. Identifico-me bastante com certas formas de sentir reveladas por Ondina na sua obra, pois é a perspetiva de uma mulher sozinha, numa sociedade patriarcal, perante uma realidade muito outra e frequentemente hermética, difícil de decifrar.

Tantos anos depois, acha que as impressões que ambos fizeram sobre os lugares e as pessoas orientais continuam a fazer sentido hoje?

O título do meu livro é um verso de um poema de A Clepsidra de Camilo Pessanha. Trata-se de um poema que aborda a brevidade da vida e de tudo, a desilusão, o desengano... creio que há versos de "A Clepsidra" que continuam atuais. Depois, há outras obras do autor, como é o caso de "Estudos e Traduções", que mostram uma visão muito etnocêntrica, muito centrada no olhar europeu, que perde o sentido na atualidade.
Quanto à Maria Ondina Braga, a sua constante busca da identidade no seio da alteridade, a tentativa de reunir os fragmentos do seu "eu" dispersos pelo mundo continuam a ter sentido hoje.

As reminiscências aparentemente autobiográficas do livro são mais ilusórias do que poderíamos pensar?

Não, talvez não. Não nego que há uma vertente autobiográfica em diversos contos. Um dos mais emblemáticos nesses aspeto é "a outra margem", inspirado numa viagem feita a uma das ilhas do West Lake em Hangzhou, na qual me perdi e vivi alguns momentos complicados. Além disso, muitas das personagens foram inspiradas em pessoas que conheci ao longo destes anos.


Parece haver nestes contos uma predileção especial pelas vítimas. A sua psique é mais fascinante do que a do agressor?

Penso que não é uma questão de fascínio pela psique, mas sobretudo de solidariedade. As vítimas não têm voz, normalmente. Eu tentei dar-lhes essa voz que lhes é negada.

Todas as situações narradas no livro, muitas delas situações-limite, podem ser sintetizadas numa única formulação: como sobreviver do outro lado do Mundo?

Talvez essa possa ser uma das formulações mais relevantes, mas não será a única. Porém, penso que essa descoberta competirá sobretudo ao leitor.


A investigadora e a académica que também é tornam-na sempre ciente (e consciente) das opções estilísticas ou estruturais que adota na sua escrita literária ou os mistérios da criação fazem com que só se aperceba disso mais tarde?

A vertente académica e da criação são dois universos diferentes. Aliás, para poder criar, tenho de me afastar da outra parte, que por vezes, interfere de forma negativa. A linguagem é outra, os procedimentos são outros. Quando escrevo, não me auto-analiso, limito-me a ir ouvindo uma espécie de voz interior e a obedecer-lhe. Com este livro, por exemplo, cheguei a ter uma ideia inicial que era escrever os contos todos na primeira pessoa. A minha ideia era uma constelação de "eus", todos eles diversos, com a sua voz distinta. Mas a certa altura, senti que não resultava. Havia contos que, escritos na primeira pessoa, soavam a falso, parecia faltar-lhes autenticidade. Foi o caso de "a roleta da vida" , não consegui escrever "eu" para aquele homem que, depois de ter perdido tudo no casino, espera para assassinar e assaltar uma mulher...


Consegue encontrar algumas explicações para a aparente aversão quer dos leitores quer dos editores portugueses ao género do conto?

Confesso que não consigo encontrar uma explicação, pois sempre gostei muito do conto. Sempre gostei de ler contos, que creio serem micro-universos condensados com profundo interesse. Aquilo que no romance se expande, no conto condensa-se. Eu sempre fui adepta da condensação, da síntese, mas a verdade é que o romance é considerado como o género maior, aquele que, segundo Milan Kundera, é a síntese intelectual suprema, a «A arte inspirada pelo riso de Deus».

E a chamada Academia: continua a mostrar-se algo relutante em relação à ficção mais breve?

Sim, também a academia continua a mostrar alguma relutância perante a ficção mais breve, embora comecem a surgir mais trabalhos de investigação e teses focadas na ficção mais breve.


Que desafios particulares lhe traz o conto, comparativamente com os outros géneros em que também já fez incursões?

Tenho de confessar que gosto de habitar o universo do conto. Como já referi antes, gosto da síntese, da condensação. O Torga, a certa altura, no Diário, dizia que escrevia a cortar palavras do texto. Eu também faço um pouco isso.
Então, o grande desafio é condensar tudo numa narrativa curta, a ação, um breve mundo ao qual se tem de dar sentido, tudo tem de ser mais intenso, concentrado, do que num romance. Por outro lado, o tipo de trabalho exigido é completamente diferente do da poesia que em mim sempre foi um pouco acidental, espontâneo, embora depois exija o tal trabalho de "polimento" da linguagem, dos sentidos.
Já o ensaio académico é algo completamente distinto, pois exige investigação, análise, enfim são outros os mecanismos através dos quais se desenrola.


Tem publicado regularmente desde 1997. Que preocupações ou temáticas elegeria como as predominantes nos vários livros que escreveu, independentemente do género onde se possam escrever?

Esta é uma questão complexa, mas talvez, temas como o exílio (em diversas e múltiplas facetas), a solidão, as desigualdades e injustiças sociais, a alienação que se vai sentindo nas sociedades possam ser alguns dos temas...

Os estudos literários estão associados por vezes a uma certa aridez. Como procura impedir que isso se manifeste na sua escrita literária?

Tento separar ao máximo as duas vertentes, deixando espeços, para não misturar a escrita académica com a literária. Na verdade, a escrita académica torna-se um pouco invasiva, um pouco à semelhança das ervas daninhas. Recordo-me que, em 2006, quando estava a trabalhar na tese de doutoramento, por exemplo, se tentava escrever um conto ou um poema parecia-me que tudo "tresandava" a tese, que ficava de certo modo, "contaminado". Neste momento, estou empenhada em afastar-me mais dessa vertente académica para me entregar à criativa. Tenho sentido essa necessidade há algum tempo e, por vários motivos, fui forçada a silenciá-la - o que espero que deixe de acontecer.

O que têm trazido à sua visão do mundo (e da escrita, já agora) a vivência em território tão distintos como o Uruguai ou, mais recentemente, Macau?
Essas vivências têm sido fundamentais e de uma riqueza extrema. Sinto que a visão que tenho do mundo e o modo como me relaciono com ele se expandiu muito e isso reflete-se na escrita também. Vivermos noutros países, adaptarmo-nos a outras sociedades, regras, mundos, amadurecem-nos, transformam-nos. Há um percurso rumo aos outros, ao conhecimento e à vivência dos outros que depois se incorpora em nós e nos torna cada vez mais humildes, verificamos que não passamos de grãos de areia, no fértil deserto que é a vida. São tantas as formas de viver, de sentir, de existirmos uns com os outros, embora depois haja uma dimensão humana, de sentimentos, de emoções que nos irmana a todos e isso descobre-se muito pela literatura, essa é uma das funções da literatura.
No caso do Uruguai, fui para lá com 29 anos e foi uma experiência profundamente enriquecedora, mas que acabou por ser um pouco mais curta devido ao corralito na Argentina, a bancarrota que depois alastrou ao Uruguai, no ano 2001-2002. No entanto, nesse ano fiz alguns amigos para a vida toda.
Já Macau, para onde fui dez anos depois, revelou outros desafios a nível da comunicação, das relações interculturais e humanas... Suponho que não teria ficado dez anos em Macau, se não tivesse tido a experiência anterior do Uruguai que me deu uma estrutura mais sólida para aguentar certos embates.

Qual o espaço que a reflexão associada à escrita e à leitura tende a desempenhar numa sociedade cada vez mais virada para o imediato?
Numa sociedade marcada pelo imediatismo, a reflexão associada à escrita e à leitura parece ser cada vez mais rara. Apercebemo-nos que tudo é lido de forma muito apressada, errada, por vezes, tudo é rápido, descartável, irrefletido. E neste panorama, torna-se cada vez mais importante a leitura, a reflexão, a escrita. A leitura de livros, de Literatura, é algo fundamental que fornece estrutura ao pensamento, confere bases a todas as dimensões da nossa vida. É triste que isto seja cada vez menos entendido e que a Literatura, até as Humanidades em geral, sejam vistas como algo dispensável, inútil, quando são algo de essencial.
Em 2018, Lídia Jorge, uma das vozes mais proeminentes da nossa literatura, publicou um romance intitulado Estuário, cujo protagonista, um jovem chamado Edmundo Galeano, regressa de uma missão de voluntariado num campo de refugiados no Quénia, com o objetivo de escrever um romance para avisar a Humanidade de um apocalipse iminente. Penso que este é ainda o papel da literatura no nosso mundo: testemunhar, avisar, tentar transformar a realidade circundante. É, por isso, importante que a tendência para a desvalorização da reflexão e da leitura seja contrariada sob o risco de se construir uma sociedade cada vez mais desestruturada, dominada pela ausência de espírito crítico e pelo vazio dos valores humanistas.

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