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Dos animais humanos aos humanos animais

Dos animais humanos aos humanos animais

Novo livro de poesia de Rosa Alice Branco é um pungente tratado sobre o amor canino.

É de amores que (nos) salvam que fala "Amor cão e outras palavras que adestram", 12.º livro de Rosa Alice Branco cuja ponto de partida é a obra do conhecido etólogo Konrad Lorenz.

A partir de breves fragmentos extraídos dos seus livros, a autora de "Gado do Senhor" entretece um diálogo que tanto pode retomar o curso do pensamento do autor austríaco como adotar inesperadas inflexões que nos conduzem para questões muito mais amplas de teor filosófico e sobretudo antropológico.

Nesta comovente declaração de amor aos animais, uma ideia-chave atravessa a generalidade dos poemas: a necessidade de exercício de poder dos homens sobre os restantes animais, num afã absoluto de domesticação que radica nas suas próprias inseguranças, mesmo que ocultas sob um manto de pretensa superioridade.

Dos pequenos aos grandes predadores, encontramos o mesmo intento de domínio nas ações do Homem, que assume perante o animal o desejo incontido de controlo absoluto do seu destino, tal como atribui aos deuses uma infinita superioridade sobre si mesmo.

Ao lado de "palavras duras de roer", exemplificativas da crueldade que tantas vezes se apodera dos donos, encontramos também traços de uma cortesia ou docilidade animais quase absolutas. Porque "é sempre possível dizer que sim a um animal", Rosa Alice Branco desfia o longo método evolutivo que resultou num processo de domesticação iniciado com os lobos e chacais até chegar aos atuais canídeos.

A "dependência em relação ao seu dono" manter-se-á pela sua vida fora, como se do rigoroso cumprimento dessa obediência cega dependesse a sua própria sobrevivência.

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"O homem conta os passos e o cão não conta o amor que lhes guia o caminho", lê-se num dos poemas em que a autora escreve sobre "as pequenas hierofanias decifráveis" que nos "guiam os passos porque a vida e o sentido são indissociáveis como o café e a água que nele fumega".

A dimensão humana que habita nas formas de vida exteriores ao ser humano é celebrada com particular êxtase em poemas que apontam também os paradoxos e fragilidades de quem julga deter os destinos de tudo o que o rodeia, mas se esquece demasiadas vezes que "todos acabam por regressar ao futuro onde se desconhecem".

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