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Maria do Rosário Pedreira: "Toda a arte é salvífica"

Maria do Rosário Pedreira: "Toda a arte é salvífica"

De regresso à publicação de um original de poesia ao cabo de uma década, Maria do Rosário Pedreira dá voz ao corpo num livro que associa cada órgão a uma emoção ou estado de alma. "Volto porque preciso muito que me amem", resume.

Uma das poetas portuguesas mais lidas e estimadas pelos leitores, Maria do Rosário Pedreira escuta os lamentos e os desejos de cada um dos õrgãos em "O meu corpo humano", livro agora publicado pela Quetzal.

Um livro com "cabeça, tronco e membros" onde não falta também um relance sobre o estado do Mundo. Apesar de reafirmar que a sua poesia "nunca quis ser panfleto", a autora de "A casa e o cheiro dos livros" lamenta o défice de empatia e a menor apetência para pensar que caracteriza o nosso tempo.

"Se continua a existir fome, para quê criminalizar "ninharias" como o piropo? Para nos anestesiarem e fazerem esquecer do que é realente urgente?", questiona.

A primeira página de "O meu corpo humano" não poderia terminar de forma mais enfática: "Volto porque preciso muito que me amem". É um apelo ou um desejo?

Tenho de explicar: o meu livro anterior acabava com a frase "Não sei se volto". Na altura, não fazia ideia se voltaria a escrever. Estava bem e não via razão para precisar da terapia que, para mim, é sempre a escrita de poesia. Precisei de escrever essa frase no livro novo para justificar o regresso ao fim de dez anos; mas ela significa, na verdade, mais do que um desejo ou um apelo: é uma frase em que o "eu" é mais do que "o meu corpo humano", é um "nós", uma forma de dizer que, contra o ódio permanente a que assistimos neste mundo, com estes poemas espero (exijo, peço?) o amor, a empatia e a compaixão para com todos os corpos que sofrem.

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Quão importantes são os estímulos exteriores (leia-se leitores) para a sua escrita poética?
Só são importantes depois de publicado o livro: quem é que não gosta de "festinhas"? Recebi muitas palavras generosas sobre este livro de amigos, confrades, personalidades que nem sabia que me liam... Mas não influem em nada na minha escrita. O poema não aparece quando eu ou os outros decidimos; aparece quando ele próprio decide aparecer.

Este é um livro de poesia invulgarmente estruturado. Mais do que fazer poemas, construiu um livro de poemas, como afirmou o João Luís Barreto Guimarães na apresentação?
Eu tenho a ideia de que todos os meus livros de poesia são estruturados e construídos, um deles ("O Canto do Vento nos Ciprestes") até lhe chamaram mini-romance. Aliás, eu só gosto de publicar "livros de poesia", nunca me seduziu publicar apenas "poemas". No caso deste livro, quando percebi que tinha um denominador comum e que esse denominador era o corpo enquanto entidade vulnerável ao tempo mas, ao mesmo tempo, objeto de sofrimento e alegria, comecei a trabalhar com a cabeça sempre virada para esse mesmo tema. E daí surgiu a ideia de dividir o livro em corpo próprio e alheio e, depois, em partes do corpo. Um livro, portanto, que também é um corpo, com cabeça tronco e membros.

Essa organização extrema, que raras vezes é associada ao ato poético, terá algo que ver com a sua faceta de editora, tarefa na qual o rigor e o método são mais evidentes?
Talvez por ser editora, goste mais de um livro com uma orgânica própria e, quase sempre, um tema unificador. Gosto também de poemas mais narrativos, o que decerto tem que ver com o facto de ser sobretudo editora de ficção. É, por outro lado, uma forma de me nortear. Se tenho uma ideia agregadora, trabalho melhor e mais concentrada do que se for inteiramente livre. Mesmo nas letras que escrevi para a fadista Aldina Duarte, houve uma vez que lhe propus uma história com princípio, meio e fim: uma história de amor, traição e abandono, um triângulo amoroso. E fizemo-la. Chamámos-lhe "Romance(s)".

Um poema também é feito de silêncio. Neste livro, pela depuração utilizada mas também pelo que está implícito, ele teve um papel especial?
O silêncio é para mim a condição da criação (nem música eu ouço enquanto escrevo). Mas é também, de certa forma, o que não está dito no poema, mas que os leitores ouvem e sentem. Por outro lado, o que não é dito, nem conversado, na vida transforma-se muitas vezes em escuridão e engano, gerando, no meu caso, poesia. O poema é também uma forma de responder a esse silêncio.

A consciência da vulnerabilidade do corpo atravessa muitos dos poemas. Nesse deve e haver entre o que ganhamos e perdemos com o passar dos anos, para onde tende a inclinar-se?
A pandemia obrigou-nos ao confinamento e à distância dos outros: amigos, colegas, família. Consequentemente, deu-nos mais tempo para nós, para nos vermos ao espelho e percebermos que já não podemos voltar a fazer uma série de coisas... É tremendo pensar que, a partir de certa idade, deixamos de ser olhados com desejo, já não poderemos vestir certas coisas sob pena de ficarmos ridículos, já não teremos hipóteses de experimentar a sensação de que fazemos uma coisa pela primeira vez. Talvez por ter uma mãe quase centenária, com quem converso muito sobre o passado, regressei frequentemente nesses encontros a uma infância talvez mitificada, mas muito feliz. Nunca mais tive esse tipo de felicidade. Claro que ganhei muita coisa com o passar do tempo, mas o que perdi foi sobretudo o que não cheguei a fazer e que já não poderei fazer.

O tempo e o amor digladiam-se ao longo dos poemas. Estão mesmo condenados a ser inimigos?
Não, ninguém deixa de amar por causa do tempo. Quando envelhece, o amor será mais velho, mas ainda é amor. Por isso digo neste livro, a certa altura, que percebi quando o "tu" seria "para sempre a minha canção". Pode faltar às vezes o ouvido e a voz, mas o amor, se é autêntico, permanece.

A melancolia é um elemento presente em muitos dos poemas, mas encontramos também a ironia, a raiva ou a lassidão. Podemos ler esta obra como uma espécie de inventários de estados de alma?
Toda a literatura o é, parece-me. Mas não tive essa pretensão.

Saímos deste livro inteiros, mas combalidos, tal o rosário de lamentos, tristezas, adversidades ou pesadelos que encontramos. Onde situaria a esperança neste livro?
No poema "punhos", por exemplo. Quando fazemos tudo para que as coisas voltem a ser como eram, porque eram felizes e, se fizermos um esforço, poderão voltar a sê-lo. Por outro lado, a esperança está depois do livro, na forma como os leitores entenderão a minha vontade de que o mundo seja mais empático e mais compassivo. Quando escrevo um poema como "seios", em que, no campo de refugiados, a rapariga tenta alimentar ao peito o irmão bebé, cantando-lhe uma canção de embalar, depois de terem perdido a mãe a caminho da salvação, espero que de facto isso faça chocalhar os corações dos leitores e abalar a sua indiferença. Que produza pelo menos empatia, se não ação.

Da solidão ao drama dos refugiados, o estado do mundo entra pelos poemas adentro na segunda das três partes do livro. Estes tempos antipoéticos que vivemos são, paradoxalmente, uma fonte de inspiração poética?
Na medida em que o sofrimento alheio se torna o nosso sofrimento, sim, são uma inspiração. Mas a minha poesia nunca se quis panfleto: penso que os dramas da contemporaneidade aparecem neste meu livro porque representam sofrimentos meus; porque me amachucam, porque me tornam impotente e porque, ao mesmo tempo, me choca que se dê tanta atenção a coisas insignificantes mas não se trate de resolver os "grandes" problemas. Se continua a existir fome, para quê criminalizar "ninharias" como o piropo? Para nos anestesiarem e fazerem esquecer do que é realente urgente?

O que pode um poema contra as violências e injustiças do Mundo?
Nada e tudo. Só o leitor o poderá dizer, claro, mas toda a arte é salvífica: se não houvesse beleza, porque desejaríamos viver?

Sobre os leitores de poesia, o Manuel António Pina costumava dizer que ainda não tinha perdido a esperança de juntá-los a todos num jantar. Em que sentido esse caráter minoritário da poesia e dos seus leitores a torna um reduto de particular liberdade para quem escreve?
As pessoas estão cada vez mais preguiçosas e menos pensantes: é muito mais fácil ver uma série de televisão do que ler um livro. E a poesia é exigente, há muita gente que não a consegue entender, de facto, por ser mais elíptica ou metafórica ou hermética e muitas pessoas não terem criado o hábito de a ler (embora, regra geral, se for mais clara, gostem de a ouvir dizer). Não creio, porém, que os poetas sejam mais livres por saberem que têm menos leitores. Penso que em toda a arte existe liberdade. Se o artista não for livre, não é um artista, é alguém que se vende ao público.

O caráter fortemente quotidiano dos seus poemas faz com que muitos lhes associem uma dimensão autobiográfica que não corresponderá de todo à realidade. O que vai verdadeiramente no seu íntimo nem aos poemas confessa?
Costumo dizer que o sentimento que subjaz ao poema é sempre meu e é sempre genuíno, mas que as histórias e os cenários em que o poema se desenha são quase sempre ficcionados, invenções literárias. Se uso a morte muitas vezes nos meus poemas, por exemplo, não quer dizer que de facto me tenha morrido alguém, mas que tenho de recorrer a ela para passar a ideia de uma perda irreparável. Gosto de misturar realidade e ficção, até porque a ficção é muitas vezes a maior das verdades.

É uma poeta de persona(gens)?
Acho que não, embora episodicamente goste de retratar classes de pessoas - atores, refugiados, sem-abrigo, bárbaros... - em parte porque se prestam melhor a determinado sentimento que quero transmitir.

Passa o dia mergulhada em leituras e nem todas - pelo menos, a parte da avaliação de manuscritos - serão das mais arrebatadoras. A escrita de poesia surge nesse contexto como um mecanismo de libertação?
Penso que me liberto mais da mediocridade que encontro nas minhas leituras quotidianas lendo coisas com valor, que felizmente há muitas e nunca o tempo chegará para ler todas. Escrevo quando me acontece precisar de me livrar de coisas que me estão a magoar, e nisso sinto libertadora a poesia, mas não necessariamente para me libertar da pobreza literária que encontro no dia-a-dia.

O que tem na gaveta (ou seja, por publicar) alguém que ajudou a tirar da gaveta algumas dos mais significativos autores portugueses da última vintena de anos?
Ideias apenas, como quando escrevi há dez anos: Não sei se volto.

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