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Os animais de quatro patas e os outros

Os animais de quatro patas e os outros

Arturo Pérez-Reverte assina uma improvável mas poderosa novela policial canina em "Cães maus não dançam". O livro, muito elogiado pela crítica espanhola aquando do seu lançamento, já tem uma edição portuguesa.

Num dos seus livros de ficção mais apreciado pelos leitores, intitulado "Cão como nós", Manuel Alegre equiparava os canídeos aos humanos, apontando-lhes virtudes como a amizade, o sentido de proteção ou a solidariedade.

Esses atributos não estão ausentes dos elencados por Arturo Pérez-Reverte na novela "Cães maus não dançam", livro publicado em Espanha há três anos e agora com uma edição portuguesa.

Todavia, entre as duas abordagens literárias há uma diferença gigantesca: se Alegre equiparava cães e homens, o autor de "O pintor de batalhas" defende, pelo contrário, que encontramos mais humanidade no comportamento dos animais do que na conduta dos Homens, essa sim demasiado animalesca na maior parte das situações.

Novela de leitura absorvente, mesmo que por vezes resvale para um certo maniqueísmo das ações, "Cães maus não dançam" apresenta-nos uma visão desapiedada dos humanos e das suas ações pelo ponto de vista animal.

O narrador é Negro, antigo cão de luta que, para salvar dois amigos desaparecidos, Teo e Boris, terá que voltar aos ringues, colocando em risco a sua própria vida.

A descrição vívida desses combates, que geram autênticas fortunas a quem as promove, constitui um dos pontos altos do livro. É difícil não sentirmos alguma revolta nas passagens em que Reverte explica com minúcia a forma despudorada como os organizadores dessas apostas ilegais lucram com o sofrimento animal e se desembaraçam dos cães mal estes deixam de ser sinónimo de fonte de receitas.

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Duro e leal, mas também "pouco inteligente", de acordo com as suas próprias palavras, Negro é um herói bem ao gosto do romancista, representando um arquétipo cujo principal representante é, sem dúvida, o Capitão Alatriste - alquebrado pelas vicissitudes da vida, mas também dotado de um código de conduta não menos do que indestrutível.

Mas este rafeiro, improvável cruzamento entre um mastim espanhol e um cão-de-fila brasileiro, não é o único exemplar canídeo em destaque nas páginas do livro. O antigo repórter de guerra criou um autêntico microcosmos animal em que encontramos representadas características que associamos aos humanos, desde a coragem, a vaidade ou a perfídia. Menos a crueldade gratuita, um exclusivo dos homens.

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