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Um manual contra a rigidez da vida, por Julio Cortázar

Um manual contra a rigidez da vida, por Julio Cortázar

Um desconcertante livro do mestre do conto, que escapa a rótulos.

Ser um dos mais desconcertantes livros de uma obra já de si desconcertante como a de Julio Cortázar não é feito de somenos. "Um certo Lucas" é o título em questão, mas não é por esse caráter insólito que a sua leitura se insinua junto do leitor até se tornar absorvente.

Sem a magnitude de "O jogo do Mundo" ou o visionarismo de "Todos os fogos o fogo", este é, todavia, um livro cujo fôlego verbal e assombrosa imaginação justificam em larga escala a sua leitura.

Algures entre o conto, o romance e a poesia, as histórias que pululam no livro mais não são do que um desdobramento da visão caleidoscópica da realidade alimentada por Cortázar, febril escritor argentino para quem as convenções eram sinónimo de aborrecimento de morte e as regras um irresistível convite para a sua transgressão plena.

Não é difícil concluir que Lucas, o invulgar personagem que dá título ao livro e à maioria das histórias, é o próprio Julio Cortázar a perorar, com a graça e a acuidade que lhe eram características, sobre tudo o que considerava realmente importante. A saber: as caçadas de crepúsculos, gatos que ocultam a sua verdadeira condição de telefones, restaurantes de luxo subrepticiamente instalados em carruagens de metro ou, pasme-se, as lentas caminhadas de caracóis que atrapalham os idílios amorosos.

Em todas estas problemáticas tão particulares, há uma recusa da observância do lugar comum, esse inimigo mortal que o autor de "Bestiário" combateu até ao fim com todas as suas forças.

Manual contra a rigidez da vida, "Um certo Lucas" é, de modo ainda mais evidente, um elogio do que se convencionou chamar de absurdo mas revela, afinal, ter mais sentido do que a obediência cega a todo o tipo de ditames. Neste inventário muito pessoal que o autor conta com irreprimível gosto, tudo parece caber: dicas para engraxar sapatos, sonetos que se parecem com ovos ou novas artes para pronunciar palestras.

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Num dos raros textos que não é dominado pelo humor, Julio Cortázar exibe uma surpreendente fragilidade, ao mostrar o impacto da morte dos que lhe são artisticamente próximos (como Louis Armstrong, Pablo Picasso ou Stravinsky). "Sairei deste hospital. Sairei curado, isso é certo, mas [...] um pouco menos vivo", escreve, após ter tomardo conhecimento, durante o seu internamento, da morte de Jean Cocteau.

Um certo Lucas
Julio Cortázar
Cavalo de Ferro

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