Literatura

Ventura Morgado: "O calão do Porto é um valor histórico"

Ventura Morgado: "O calão do Porto é um valor histórico"

Fernando Ventura Morgado, autor de "Porto cor-de-roxo: texturas de amor e dor", acaba de publicar o segundo romance: "Os pinguins não moram aqui: sombras e claridades". E falou com o JN sobre isso.

Com 66 anos, Fernando Ventura Morgado já foi muita coisa na vida, mas só agora, na reforma, decidiu dar início àquela que foi sempre a sua grande paixão: a escrita. O livro "Os pinguins não moram aqui: sombras e claridades", publicado em novembro passado, encontra na cidade do Porto o palco da homenagem. O autor fala sobre o seu bairrismo e o seu abandono.

"Este livro segue a linha de escrita da minha primeira obra. É um romance com o Porto no epicentro. Retrata um amor que consegue afastar as pessoas do Porto, mas que também pode fazê-las regressar", explica Fernando Ventura Morgado ao JN. "É um livro que aborda questões como o despejo e a desertificação da zona histórica."

"Já não tenho idade que chegue para escrever tudo o que sei sobre o Porto", diz, admitindo que recua sempre à sua memória e ao amor pelo Porto para escrever.

Abandono, degradação e retorno

"Os pinguins não moram aqui: sombras e claridades" é um livro que se desdobra sobre imigrantes, mestiçagem cultural e sobre como os filhos dessas relações se sentem representados culturalmente. "O livro passa pela Austrália, África do Sul e Canadá, mas o sentimento da saudade do Porto está sempre lá. Apesar de terem saído por diversas razões, há sempre a vontade de regressar."

"A linha fundamental deste livro é o abandono, a degradação e o retorno. É baseado na minha experiência. Agora, olho para Miragaia, que está cheia de hostels, mas está morta", desabafa Ventura Morgado.

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O autor, que viveu a grande parte da sua vida em Miragaia, recorda o bairro, povoado, de jovens, a algazarra e o palavreado típico da freguesia. E recorda como depois assistiu ao seu abandono.

O título do livro não é um acaso. "Miragaia era uma zona pobre, não havia gente rica, não havia gente de cartola. A minha escola primária era lado do Palácio da Bolsa, onde havia cerimónias com o presidente do Brasil ou o rei de Espanha. Nós, miúdos, chamavamos-lhes pinguins. Em Miragaia não moravam pinguins".

A troca de habitações por hotéis no concelho do Porto é uma das críticas feitas pelo autor. É um problema que chegou à sua família. "Tenho uma tia que teve de sair de Miragaia, porque o prédio foi comprado por agiotas. Depois vieram o medo, a falta de condições e de manutenção. Os vizinhos foram desaparecendo. Acabou sozinha naquele prédio e acabou por sair".

"Atacar o calão é a atacar a história do Porto"

Desengane-se quem, ao ler o livro, julgar que tem erros de ortografia. É o calão e o sotaque do Porto vertidos em palavras: "não" vira "num", os "v" são trocados por "b". Fernando Morgado não tem medo de escrever como fala. "O calão do Porto é um valor histórico. É tão penalizador atacá-lo como à sua história", defende.

Trabalhou numa farmácia e numa ourivesaria, mas foi a experiência num cabeleireiro que mais inspirou a sua escrita. Um sonho que esteve sempre presente desde os 11 anos, mas que foi adiado pelos afazeres da vida. "Escrevo desde que me conheço. Sempre tive interesse pelas palavras, jogar à bola nunca me interessou. E depois a vida aconteceu, casamento, filhos e trabalho. Agora, que estou na reforma, perdi o medo de mostrar-me", admite o escritor portuense.

O autor já tem planos para o próximo livro, será baseado no eixo Porto-Douro e na cultura dos vinhos. Fernando Ventura Morgado escreve por prazer mas a escrita é, também, uma necessidade. Mas sem pressas. "Foi o Saramago que disse "não tenhamos pressa, mas não percamos tempo". É nessa linha de pensamento que vou escrevendo."

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