Descobrir Mentes

A psiquiatria saiu das trevas, mas o caminho a percorrer ainda é longo

A psiquiatria saiu das trevas, mas o caminho a percorrer ainda é longo

Debate sobre saúde mental na região Centro acentua dificuldades sentidas nas zonas mais interiores do País.

"A psiquiatria saiu, finalmente, das trevas. Já não somos vistos como os médicos que fazem lavagens ao cérebro dos doentes, nem os doentes como culpados da doença que têm. Sinto que há um novo paradigma a surgir no que diz respeito ao combate aos problemas da saúde mental, mas ainda temos um longo caminho para percorrer". O tom otimista usado pelo psiquiatra João Brás, presidente da Associação Portuguesa de Internos de Psiquiatria (APIP), foi o mote do debate "Descobrir Mentes" realizado ontem na Rádio Regional do Centro, no âmbito de uma parceria entre o JN, a TSF e a farmacêutica Janssen.

Horácio Firmino, psiquiatra no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), arraigou o tom ao afirmar que hoje, ao melhor conhecimento da patologia, juntou-se outra relevante alteração: "O paradigma deixou de ser médico-doente, para passar a ser doente-equipa multidisciplinar, o que permite definir planos de intervenção individuais".

"O trabalho pessoa a pessoa é decisivo. E isso só se consegue com equipas comunitárias completas, com psiquiatras, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais", concordou Joana Sarmento, enfermeira na Casa de Saúde Rainha Santa Isabel, em Coimbra.

Júlia Isabel, da Associação Dar Voz, sente o problema na pele: tem uma filha internada e, por isso, sabe a importância da "relação com a família". "Quando me disseram que o doente é o centro do universo não acreditei. Mas, no meu caso, somos ouvidos em tudo. De certa forma, fazemos parte da equipa multidisciplinar", assinalou.

Custos da interioridade
A recente decisão do Governo em voltar a comparticipar entre 5% a 10% os antipsicóticos simples (ver edição de 20 de junho do JN) ajuda no combate à doença mental. Mas, sobretudo no interior da Região Centro, há outros custos elevados a considerar.

"A diferença no acesso aos cuidados de saúde é muito grande quando comparamos o litoral com o interior", assevera João Brás. "Basta ver o que se passa com os transportes, ou com a fuga de jovens médicos do interior. Os 85 milhões de euros previstos no Plano de Recuperação e Resiliência para gastar em saúde mental são positivos, mas para que não se transformem num copo de água no deserto é preciso apostar nos cuidados de saúde de proximidade. E daí a importância das equipas comunitárias", assinala o médico.

Horácio Firmino concorda. "Em Coimbra já houve 80 psiquiatras, hoje somos 38. E, no espaço de três anos, 13 ou 14 vão aposentar-se. Até podemos estar a construir o "copo", mas se não tivermos recursos humanos para meter lá dentro, vamos regredir", teme o psiquiatra.

"Há uma evolução muito grande na formação dos profissionais de enfermagem ligados à saúde mental, mas as equipas não são suficientes", acrescenta Joana Sarmento. E isso, continua a enfermeira, pode pôr em causa "o apoio às famílias. Não podemos esquecer que os doentes não vivem isolados. Os cuidadores também precisam de ajuda".

"Nesse aspeto faz-se o possível", atalha Júlia Isabel, "mas o possível ainda é pouco. Nas escolas, por exemplo, as crianças com problema mental têm 30 minutos de terapia semanal e consulta no hospital de seis em seis meses. Não chega".

Ora, conclui Horácio Firmino, sem esse trabalho, nas escolas e fora delas, "é mais difícil alcançar o grande objetivo: tirar os doentes das instituições, reabilitá-los, dar-lhes uma nova vida".

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