Descobrir Mentes

Falar de Saúde Mental

Nunca antes foi tão importante falar-se de um tema como o da Saúde Mental. No contexto em que vivemos, esta é uma temática que não deve ficar esquecida.

Foi necessária uma tragédia como a causada pela pandemia de Covid-19 para que a saúde mental ganhasse visibilidade mediática em Portugal. Ao ponto de o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) lhe atribuir uns históricos 85 milhões de euros, com os quais, entre outras coisas, se pretende refazer o Plano Nacional de Saúde Mental (o atual tem 14 anos de vida) e criar 40 equipas comunitárias capazes de, indo de casa em casa, evitar internamentos desnecessários.

Falar de saúde mental é, como se explica no 1.º Relatório do Estudo Epidemiológico Nacional de Saúde Mental (2013), falar "muito mais do que da mera ausência de doença mental", na exata medida em que ela "é uma parte indissociável da base do bem-estar e funcionamento eficiente dos indivíduos. Refere-se à capacidade de adaptar-se a mudanças, enfrentar crises, estabelecer relações satisfatórias com outros membros da comunidade e descobrir um sentido para a vida". Entre as dez primeiras causas de incapacidade, cinco são doenças mentais: a depressão, a esquizofrenia, a doença bipolar, as perturbações pela utilização de álcool e a perturbação obsessivo-compulsiva.

Na verdade, a saúde mental sempre foi "uma espécie de parente pobre das políticas de saúde", concordam os psiquiatras Ana Matos Pires e Licínio Santos. O que se entende mal, quando se olha para os dados conhecidos sobre a matéria. A prevalência das perturbações psiquiátricas em Portugal é muito elevada: estima-se que um em cada cinco portugueses (20%) tenha algum tipo de perturbação nos 12 meses anteriores a consultar o médico. No espaço europeu, só a Irlanda do Norte tem estatísticas piores do que as nossas.

Ainda de acordo com o 1.º Relatório do Estudo Epidemiológico Nacional de Saúde Mental, as perturbações de ansiedade são o grupo que apresenta uma prevalência mais elevada no nosso país (16.5%) e que mais contribuem para que, em conjunto com a Irlanda do Norte, nos distingamos dos outros países da Europa, em relação à prevalência das perturbações psiquiátricas.

Seguem-se as perturbações depressivas, as perturbações de controlo de impulsos e por abuso de substâncias, todas elas com valores mais próximos dos encontrados nos outros países europeus. As mulheres, os grupos de menor idade, e as pessoas separadas e viúvas apresentam uma maior frequência de perturbações psiquiátricas.

Ana Matos Pires, coordenadora de saúde mental na região do Alentejo, agarra a máxima da Organização Mundial de Saúde (OMS) - "Não há saúde sem saúde mental" - para soltar um sinal de esperança. "A pandemia teve um efeito perverso: deu visibilidade a este problema. Finalmente, a saúde mental ganhou a atenção da tutela", assinala a psiquiatra, para acrescentar: "Acredito que estamos num ponto de viragem, no que diz respeito a esta área".

Licínio Santos, médico no Hospital Central do Funchal, assinala a importância de um olhar revigorado para a saúde mental. "É a área em que há menos investimento [nas políticas de saúde]. Além disso, basta termos em conta o elevado número de dias de vida e de trabalho que as pessoas com perturbações psiquiátricas e as que as apoiam perdem, para termos a noção real da dimensão do problema", frisa o psiquiatra, para quem "é ridículo não haver comparticipação a 100% para os [medicamentos] antipsicóticos. São muitas as pessoas que abandonam o tratamento por não os poderem pagar".

Se a isto somarmos a circunstância de o início do tratamento começar apenas, em média, um ano após o início da doença, "está bom de ver a importância do diagnóstico precoce", alerta Ana Matos Pires. Os estudos mostram que "o tratamento precoce tem provado ter uma influência significativa na evolução da maior parte das perturbações mentais", pelo que, considera Licínio Santos, "é fundamental haver uma maior sensibilização e consciencialização para o problema". Ana Matos remata com uma frase lapidar: "Temos todos muito medo da doença mental".

Um problema: falta de estudos

"Os estudos epidemiológicos em Portugal são fracos, por falta de investimento. Está tudo virado para a chamada ciência de ponta", assinala Ana Matos Pires. "Brincando com uma coisa muito séria, costumo dizer que o poder reivindicativo do doente mental é muito fraco".

Na verdade, dada a gravidade e a prevalência das perturbações psiquiátricas em Portugal, há um rol de questões que, justamente pela falta de estudos sobre a matéria, estão por explicar. O 1.º Relatório do Estudo Epidemiológico Nacional de Saúde Mental sumariza-as: "Estará a população portuguesa exposta a mais fatores de vulnerabilidade e/ou menos fatores de proteção em relação às doenças mentais que levem a uma maior frequência de patologia psiquiátrica entre nós?"; "Assim sendo, qual a natureza e o papel dos fatores envolvidos?"; Há, na nossa cultura, "padrões específicos de perceção e manifestação das queixas do foro emocional que levem a uma maior expressão dos sintomas que estão na base dos diagnósticos de doença mental?". Resposta: "Não temos respostas definitivas para estas questões, o que reforça ainda mais a necessidade de se desenvolverem novos estudos de epidemiologia psiquiátrica em Portugal".

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