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"Saúde mental entrou em casa de todos nós" com a pandemia

"Saúde mental entrou em casa de todos nós" com a pandemia

Dia Mundial da Esquizofrenia suscitou debate sobre uma doença que afeta um em cada quatro portugueses

Uma em cada quatro portugueses sofre com algum tipo de doença psiquiátrica. Os dados mais recentes colocam Portugal na cauda na Europa, no que a este problema diz respeito (pior do que nós só a Irlanda do Norte). O fenómeno não tem explicação fácil, como fez notar Miguel Xavier, psiquiatra e diretor do Programa Nacional de Saúde Mental (PNS), no debate ontem emitido pela TSF, para assinalar o Dia Mundial da Esquizofrenia.

"Os determinantes da saúde mental são complexos de medir e de ponderar", assinalou o psiquiatra. Uma coisa, contudo, é certa: as questões de natureza social e económica, como taxas de precariedade e de desemprego altas, ou a existência de uma parte importante da população a viver abaixo do limiar de pobreza (sendo as crianças e os adolescentes um contingente importante) concorrem para que a prevalência das doenças do foro psiquiátrico seja mais acentuada. Talvez seja por isso que os estudos sobre a matéria mostrem que, no nosso país, "esta seja uma tendência que se verifica desde os anos 70", assinalou o diretor do PNS.

Joaquina Castelão, presidente da FamilarMente (Federação Portuguesa das Associações das Famílias de Pessoas com Experiência de Doença Mental) nota "alguns progressos" nos últimos anos, ainda assim "muito insuficientes" para responder aos problemas que a doença coloca a famílias e doentes. É por isso que sublinha a necessidade "investir em programas de promoção, mas de uma forma continuada". Sem isso "não se consegue aumentar, por um lado, o acesso aos cuidados [de saúde] e, por outro lado, combater o estigma ainda enraizado na sociedade em relação aos doentes mentais e respetivas famílias, principalmente quando se fala de doença mental grave".

A questão do estigma é particularmente séria, desde logo porque, como frisou João Marques Teixeira, psiquiatra e membro da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, "o estigma tem uma dinâmica tal que se mete nos interstícios de toda a sociedade. Talvez por isso seja tão difícil lutar contra ele". Ainda assim, apontou o médico, "não o podemos generalizar a todas as doenças do comportamento. Hoje, uma pessoa que tenha ansiedade ou depressão não tem qualquer problema em pedir ajuda. O que não acontece quando há uma profunda alteração do comportamento que afasta as outras pessoas: aqui, sim, há muita estigmatização". O problema é ainda mais profundo, na medida em que "mesmo dentro da classe médica há, ainda, algumas especialidades que não têm uma atitude correta em relação a este tipo de doentes", referiu o psiquiatra. "É preciso uma formação mais alargada, para possibilitar o diagnóstico precoce".

Se a isto juntarmos a circunstância de "as questões da saúde mental nunca terem sido um assunto prioritário em Portugal", como referiu Miguel Xavier, percebe-se melhor a paradoxal importância da pandemia. "A situação só começou a mudar de forma muito significativa com a pandemia, pela visibilidade mediática que alcançou. A saúde mental entrou em casa de todos nós, afetou-nos a todos. Espero que esta seja uma oportunidade que não se perca, porque os custos que a sociedade paga por não considerarmos prioritária a saúde mental são altíssimos. Atualmente, investimos neste problema menos de metade do que é necessário". Em Inglaterra, por exemplo, 14% do orçamento da saúde é gasto com a doença mental.

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