Descobrir Mentes

Tratar saúde mental ajuda a melhorar outras doenças

Tratar saúde mental ajuda a melhorar outras doenças

Psiquiatras fazem balanço das necessidades e apontam soluções em iniciativa que fecha périplo de país. Verbas da "bazuca" ajudam, mas há uma infinidade de problemas por resolver

"Quando tratamos a saúde mental, as outras doenças melhoram. Qualquer euro investido na psiquiatria traz muito retorno". A frase proferida por Nuno Madeira, membro da direção do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos, durante o webinar que encerrou a iniciativa "Descobrir Mentes" resume na perfeição o paradoxo que encerra o "estado da arte" desta área da política de saúde em Portugal.

O desinvestimento crónico na saúde mental (é gasto menos de metade do que seria necessário) está em contraciclo com a gravidade do problema: entre as dez primeiras causas de incapacidade, cinco são doenças mentais; estima-se que um em cada cinco portugueses tenha algum tipo de perturbação ao longo da vida; há no nosso país 48 mil doentes com esquizofrenia, dos quais 7 mil não têm acompanhamento médico.

Por onde começar, agora que o Plano de Recuperação e Resiliência tem disponíveis 85 milhões de euros para gastar em saúde mental? O psiquiatra Rui Durval, coordenador do hospital de dia Eduardo Luís Cortesão,não tem dúvidas: "É fundamental apostar nas estruturas intermédias. A maior parte dos doentes mais graves têm de deixar de ser tratados nos hospitais. Em Lisboa, a Santa Casa da Misericórdia faz a caridade de nos dar muitos apoios a este nível. O problema é que, se o doente for da Amadora, já não temos resposta."

Autonomia sim, cativação não

Sónia Azenha, psiquiatra responsável pelo internamento do Hospital de Braga, segue o raciocínio do colega de profissão. "Os cuidados intermédios são ainda muito escassos. Em Braga, não temos nenhuma estrutura residencial que confira autonomia às pessoas. Este tipo de estruturas são a melhor alternativa para os cuidados asilares, porque permitem potenciar as capacidades de quem as pode ainda desenvolver, ajudando, ao mesmo tempo os cuidadores".

Nuno Madeira atalha para sublinhar uma preocupação. "Se não for dada autonomia à saúde mental para aplicar essa verba, podemos ter belíssimas ideias, mas arriscamos que tudo fique na mesma. O Governo tem que acarinhar a psiquiatria. E, de preferência, sem cativar o dinheiro", ironizou.

É verdade que a pandemia "meteu a saúde mental no nosso quotidiano", como frisou Sónia Azenha, desde logo, porque, acrescentou Rui Durval, "nos apareceu como culpado identificado e nos mostro a importância de estar com os outros." Mas nada disso esconde o óbvio, assim resumido pelo psiquiatra: "Neste país, não há nenhum espaço de urgência psiquiátrica adequado."

Falta de recursos

A isso somam-se a crítica falta de recursos e a distribuição "absolutamente assimétrica dos que existem. Só 7,5% dos psiquiatras estão no interior do país", notou Nuno Madeira. "A falta de recursos para a saúde mental é quase uma ilusão. O que há é falta de recursos para a psiquiatria. Ponham a funcionar a psiquiatria e arranjem recursos sociais para melhorar a saúde mental. É fundamental mudar a ideia de que as doenças psiquiátricas não são bem doenças, são assim umas manias que as pessoas têm", atirou Rui Durval.

As equipas comunitárias ajudam a minorar o problema, porque "favorecem a integração do doente na comunidade. O direito da pessoa viver em sociedade e poder escolher com quem vive, de ter acesso a apoios domiciliários e a assistência social, tal como têm doentes com outras patologias, é inalienável", referiu Sónia Azenha.

O rol de necessidades dava um livro. E para uma urge solução, porque, como, como assinalou Nuno Madeira, usando números da Organização Mundial de Saúde, a depressão é, desde 2017, "a maior causa de incapacidade". Os custos estão estimados: entre 2011 e 2030, o impacto das perdas causadas pelas doenças mentais será de 15 milhões de milhões euros...

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