PRÓSTATA DE LÉS A LÉS

Doentes e médicos ainda têm preconceitos com apalpação da próstata

Doentes e médicos ainda têm preconceitos com apalpação da próstata

"Toque retal é um exame como qualquer outro"

Não é o único exame de diagnóstico para detetar problemas da próstata, mas é o método mais simples para começar a avaliar o estado de saúde da glândula masculina, responsável pela neoplasia (massa anormal de tecido) maligna mais frequente no sexo masculino e a segunda causa de mortalidade por cancro nos homens no mundo ocidental. A simples apalpação através do reto nas consultas do médico de família oferece dados imprescindíveis para interpretar o estado de saúde do paciente. Além da avaliação do tamanho e consistência da próstata, é identificado o tipo e a regularidade da superfície, assim como as zonas dolorosas. São elementos necessários para definir a terapêutica. Em Portugal não há dados disponíveis, mas sabe-se que em Inglaterra quatro em cada dez casos de cancro da próstata são diagnosticados através do toque retal em consultas de rotina ou urgência.

Apesar da importância do toque retal, o urologista Miguel Rodrigues admite que ainda há preconceitos com este diagnóstico mesmo entre especialistas e médicos de medicina geral e familiar. "É um exame invasivo que mexe com a intimidade e com a masculinidade. Felizmente há cada vez mais informação e gradualmente tem vindo a ser mais natural, mas ainda temos de combater muito preconceito e desmistificá-lo". O médico compara-o a um qualquer outro exame. "A apalpação da próstata tem de ser vista sem aversão, como se faz com os exames aos ouvidos ou à garganta".

A Ultraperiferia Algarvia

Miguel Rodrigues foi o último urologista participante no projeto "Próstata de Lés a Lés" que em conjunto DN, JN e TSF têm desenvolvido nas últimas semanas em diversos pontos do país para conhecer a realidade do cancro da próstata. Em Faro, onde foi entrevistado, o urologista confirma assimetrias entre regiões já evidenciadas também por outros especialistas, nomeadamente a nível da falta de equipamentos para tratamento e falta de profissionais. "A atual conjuntura de pandemia no Algarve relegou a vigilância dos problemas da próstata e não permite que os diagnósticos precoces sejam tão efetivos como seria desejável. Os médicos de família estão sobrecarregados e a nível hospitalar falta capacidade de atendimento. Quem trabalho no Serviço Nacional de Saúde (SNS) tem de fazer muitas vezes omeletes sem ovos".

Miguel Rodrigues, até há pouco tempo profissional do Centro Hospitalar Universitário do Algarve e atualmente a exercer no setor privado, considera a região ultraperiférica. Enquanto aponta falhas ao SNS realça, simultaneamente, a qualidade dos cuidados de saúde à custa do esforço dos médicos. A situação, explica, tem criado um novo paradigma. "Os doentes têm a sensação, por vezes até errada, de grande demora para chegar à consulta hospitalar e isso leva-os a procurarem, cada vez mais, a medicina privada para obterem um diagnóstico precoce mais atempado. Perante uma suspeita querem chegar ao hospital com mais elementos sobre a situação. Outros nem esperam e tentam logo o tratamento a nível privado".

A falta de médicos no Algarve é explicada pelo jovem urologista, natural de Olhão, com a pouca atratividade da região para os fixar, seja pelas condições das estruturas de saúde, seja pelas reduzidas possibilidades de investigação. Quando há uns anos enveredou pela medicina teve de estudar em Lisboa porque não havia curso na universidade algarvia. Hoje é diferente. "A faculdade de medicina já dá um impulso para quem quer estudar e investigar, mas ainda não é suficiente. A região tem de cativar mais". Miguel Rodrigues, por sua vez, após concluir o curso decidiu regressar para fazer o internato geral devido ao que disse, a sorrir, ser o "chamamento da terra".

Estrangeiros Confiam

O Centro Hospitalar Universitário do Algarve presta cuidados de saúde a cerca de 450 mil habitantes, onde se inclui a comunidade estrangeira residente. O número pode triplicar na época alta do turismo quando se acentuam as dificuldades pela falta de profissionais. Sobre a relação dos estrangeiros com os serviços de saúde portugueses que tratam as questões da próstata, Miguel Rodrigues confessa que confiam cada vez mais. "Recorrem sobretudo à medicina privada devido a seguros de saúde, mas confiam igualmente no serviço público. Por vezes deslocam-se aos seus países para confirmar determinados diagnósticos, mas acabam por regressar com a mesma informação que receberam aqui". O especialista justifica que as técnicas de tratamento estão padronizadas e apenas nota que a literacia em saúde entre os doentes estrangeiros é mais elevada. "Há uns anos havia alguma relutância em serem tratados aqui, mas atualmente isso não acontece".

- ESCLARECIMENTO -

No artigo da semana passada, no âmbito do Projeto "Próstata de Lés a Lés", foi entrevistado Pedro Galego, erradamente identificado como urologista do Hospital do Espírito Santo de Évora. A verdade dos factos impõe a devida correção. O DN e o JN lamentam o sucedido. Apesar de conhecer a realidade da estrutura alentejana onde exerceu funções durante vários anos, a verdade é que à data da publicação, como nos alertou o hospital, o médico já não pertencia ao respetivo quadro clínico.

Mais Notícias (desktop)

Outros Conteúdos GMG