PRÓSTATA DE LÉS A LÉS

Urologista Pedro Nunes garante: Coimbra tem a lição estudada

Urologista Pedro Nunes garante: Coimbra tem a lição estudada

"A população de Coimbra tem acesso fácil ao médico de família e, por outro lado, o encaminhamento de casos suspeitos de cancro da próstata para os especialistas do hospital é célere. Em período razoável damos resposta às necessidades da população".

O médico Pedro Nunes acredita, convictamente, que o acesso aos cuidados de saúde urológicos na região é satisfatório e acrescenta o exemplo do que se passa no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. "Quando recebemos um caso com forte suspeita de carcinoma da próstata, dependendo da idade do doente e do estadio em que se encontra a doença, conseguimos observar esse doente em dois meses, e depois num período curto de dias ou semanas, dependendo da gravidade da situação, conseguimos diagnosticar e propor-lhe um tratamento adequado. Para este tipo de patologia julgo ser um prazo bom". O que pensa a Associação Portuguesa de Doentes da Próstata? O vice-presidente, José Graça, prefere não fazer referência a casos concretos, mas deixa um alerta: "Dois meses pode ser muito ou pouco. Se for um cancro já metastizado é demasiado".

Não existem ainda dados apurados, mas a associação acredita que a pandemia motiva agora ainda mais atrasos. As duas visões, a opinião do médico e a do representante dos doentes, é exatamente um dos objetivos do projeto conjunto do Diário de Notícias, Jornal de Notícias e TSF, "Próstata de Lés a Lés", desenvolvido em parceria com a Associação Portuguesa de Urologia (APU) e Associação de Doentes da Próstata. Trata-se de uma iniciativa que está a percorrer o país para perceber o "estado da arte" desta doença oncológica, responsável anualmente pela morte de cerca de 1900 portugueses.

Ainda que em Coimbra o especialista entrevistado encare a questão com otimismo, na primeira reportagem desta série com Abranches Monteiro, presidente da APU, identificava-se um tema sensível. "Portugal é um país pequeno e apresenta assimetrias no acesso aos cuidados de saúde. Continuamos a encontrar discrepâncias entre os grandes centros e o interior. Do litoral temos sempre a perceção que existem melhores cuidados de saúde, mas é onde enfrentamos as maiores dificuldades com os tempos de espera na passagem dos doentes dos centros de saúde para os hospitais. Isso acontece, sobretudo, devido à densidade populacional".

Coimbra Informada

A iniciativa "Próstata de Lés a Lés" partiu de Lisboa, em direção a Guimarães, já passou por Vila Real, Viseu e na cidade dos estudantes continuou a recolher evidências sobre o acesso e o tratamento do cancro da próstata. Nos cuidados primários, o urologista Pedro Nunes elogia o trabalho dos médicos de família desenvolvido em conjunto com os especialistas. "Todos os anos são realizadas jornadas dedicadas à medicina geral e familiar onde o cancro da próstata é sempre protagonista. Isso alarga o conhecimento dos clínicos de medicina geral e familiar, além de facilitar o contacto connosco". Os conhecimentos da população sobre os problemas da próstata também merecem nota positiva. "As pessoas de Coimbra são umas privilegiadas. Acho que têm um grau de instrução superior à média do país e isso reflete-se na literacia em saúde. Nas questões da próstata rotularia o conhecimento da população urbana de suficiente a bom porque, de modo generalizado, está sensibilizada para este tema".

A falta de informação ou menor conhecimento sobre as patologias urológicas, afirma, reside nas franjas do concelho e nas regiões mais rurais. O médico defende a necessidade de uma reflexão entre os diversos agentes da saúde para mitigar as consequências do cancro da próstata que designa como problema de saúde pública, um dos principais responsáveis pela mortalidade oncológica entre os homens. Para Pedro Nunes é necessário o investimento em campanhas de informação que promovam o diagnóstico precoce.

Inovação trava cancro traiçoeiro

"Queremos diagnosticar o cancro da próstata na fase em que a doença está localizada. É o único momento em que o conseguimos curar, mas descobri-lo é a grande dificuldade porque é assintomático, ou seja, não revela sintomas nessa fase". A declaração ilustra a importância dos exames iniciais para detetar o carcinoma porque mais tarde, ao surgirem os primeiros indicadores, "já não conseguimos curar, mas apenas controlar a doença", alerta o urologista explicando que é nesse momento que há sintomas. Os mais comuns são o sangue na urina, dificuldades em urinar e dores ósseas, se o cancro estiver mais avançado e existirem metástases para além da próstata.

O diagnóstico precoce fundamenta-se em um ou dois testes. O principal e mais conhecido é o doseamento do PSA (análise sanguínea) que deve ser proposto anualmente a todos os homens com mais de 50 anos e, eventualmente, aos 45 anos se existir algum historial familiar de doença grave precoce. Outro exame é a apalpação da próstata através do toque retal. "Os homens têm receio desse exame, mas é simples e muito útil permitindo diagnosticar a doença em fases muito precoces", esclarece Pedro Nunes e acrescenta de seguida que após a descoberta, a inovação tecnológica permite determinar cada vez com mais rigor a situação da doença. Nunes exemplifica com alguns testes genéticos e a ressonância magnética multiparamétrica que permitem analisar a estrutura da próstata mais detalhadamente em comparação com a ecografia. São ferramentas que permitem diagnósticos mais inteligentes e localizados.

Os tratamentos também melhoraram significativamente a sobrevivência e a qualidade de vida dos doentes. O especialista de Coimbra dá um exemplo: "Dispomos hoje de aceleradores de partículas lineares que nos permitem grande precisão na zona da próstata em tratamento. Também fazemos braquiterapia que é uma outra radioterapia em que se colocam sementes radioativas na próstata do doente com grande grau de precisão para o tratamento localizado".

Ao nível da cirurgia, a precisão também é a palavra de ordem porque permite, segundo os médicos, preservar o mais possível a função sexual dos homens e a diminuição das taxas de incontinência urinária. Entre diferentes realidades que a doença representa, Pedro Nunes desdramatiza. "Há doenças da próstata que não precisam de tratamento imediato, mas apenas de vigilância ativa ou monitorização dos sintomas. Só em casos de progressão significativa da doença é que avançamos para tratamentos e com isso conseguimos melhorar significativamente a qualidade de vida do doente. Apenas submetemos o paciente a formas mais agressivas e, eventualmente com efeitos secundários, os que verdadeiramente precisam".

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