Cumbre Vieja

Entre o medo e a incerteza, 60 dias de eternidade

Entre o medo e a incerteza, 60 dias de eternidade

Com mais de 2700 edifícios destruídos e pelo menos 550 milhões de euros em prejuízos, La Palma vive "os piores" dias da história recente. Choram-se as perdas e procura-se recomeçar, com a certeza de que quem manda é mesmo a Natureza.

Dois meses depois, cansaço. A 19 de setembro, a terra acordou em La Palma e para crescer, como quem se espreguiça de um longo sono, roubou chão, trabalho, paz e uma vida. O vulcão rasgou as entranhas de Cumbre Vieja, que ocupa quase toda a metade sul desta ilha das Canárias, e pelo menos três línguas de lava já se fundiram com o mar.

Nasceu território, perdeu-se o sossego. E ninguém se atreve a prever o fim da erupção. "Houve uma diminuição da quantidade diária de dióxido de enxofre emitida pela cratera e isso pode indicar uma diminuição da atividade do vulcão", explicou José Pacheco, diretor do Instituto de Investigação em Vulcanologia e Avaliação de Riscos (IVAR) da Universidade dos Açores. No entanto, avisa, continua a haver "alguma deformação da crosta terrestre", o que mostra que "o sistema não está estável". Com os vulcões, é mesmo assim. Um período de acalmia não descarta futura tormenta.

É por isso que Lucía González, de 58 anos, confessa, ao jornal espanhol "El País", que vive com o coração nas mãos. "Estou o dia todo em colapso nervoso. A minha casa parece que vai desabar", conta, à saída de um supermercado, na cidade de El Paso. Uma inquietação justificada. Após quinze dias com menos de 100 sismos diários, La Palma registou, na passada quarta-feira, o máximo de 300. "Pode significar que o sistema de alimentação do vulcão continua a funcionar em pleno", esclarece José Pacheco, explicando que tudo depende da profundidade a que ocorrem os sismos.

"Parecia tudo mais calmo e cá vamos nós outra vez", desabafa, ao mesmo jornal espanhol, Juan Pais, residente em Los Llanos de Aridane . Nunca a monotonia de uma vida rotineira fez tanta falta à população.

Percurso de 10 minutos faz-se em hora e meia

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Dois meses num cenário assim valem uma eternidade. "Mesmo aqueles que não sentiram diretamente o impacto do vulcão, vendo as propriedades destruídas, estão com as vidas muito complicadas", nota o diretor do IVAR, com um simples exemplo. Percursos que se faziam em dez minutos de carro demoram, agora, hora e meia. A lava "cortou a ilha", desde a cratera até ao mar e, por isso, é enorme a estafa de quem trabalha de um lado do vulcão e mora no outro.

Já para não falar da qualidade do ar, "em níveis pouco próprios para se manter uma atividade normal". Medições essas - e tantas outras - que têm e terão cunho português. José Pacheco foi um dos vulcanólogos que integrou a primeira missão do IVAR em La Palma, em outubro. Durante uma semana, a equipa de investigadores dedicou-se à recolha de amostras de cinzas e lava, além da análise dos produtos emitidos pelo Cumbre Vieja.

"Nessa altura, deixámos lá três equipamentos instalados e, agora, com base nos dados recolhidos e do que vimos no terreno, juntamente com a equipa do Involcan [Instituto Vulcanológico das Ilhas Canárias], afinámos outro sensor que será mais útil e vamos lá montá-lo no início de dezembro", explicou. Nesta nova expedição, os esforços estarão centrados em monitorizar a deposição de cinza no solo e os níveis dos gases emitidos, nomeadamente o dióxido de carbono e de enxofre, "os mais críticos".

Mesmo para quem está lá a estudar o fenómeno - um dos mais impressionantes da natureza - para prever situações semelhantes, o dia-a-dia é desgastante. "As equipas estão cansadas porque o ritmo para gerir uma crise destas é seguramente acelerado. É preciso trabalhar em turnos e ter em conta que as pessoas estão deslocadas das sedes, o que significa que toda a rotina de trabalho tem de ser afinada", notou.

Golfinhos e baleias? Os turistas só querem o vulcão

O tempo impõe a procura da normalidade, mas como reconheceu o presidente da ilha, Mariano Hernández Zapata, estes 60 dias de erupção do vulcão foram "os piores" da história recente de La Palma. A lava do Cumbre Vieja engoliu 1037 hectares, destruiu mais de 2700 edifícios e gerou prejuízos de pelo menos 550 milhões de euros, abalando inequivocamente as principais fontes de receita da "isla bonita": o cultivo da banana e o turismo.

Vivem-se, portanto, tempos de adaptação. Os barcos que percorrem a costa, repletos de turistas, em busca de baleias e golfinhos já não chegam à água com esse propósito. "Venho é ver o vulcão", reconhece Paco Ángel, de 64 anos, ao "El País", confessando que não foi fácil convencer a mulher, Paquita Moreno, a viajar de Barcelona até La Palma. "Estamos num hotel que acolhe vítimas e surpreendeu-nos o facto de elas se cumprimentarem como se fossem vizinhas. Uma mulher contou-me a sua história e chorei. Foi ela, que ficou sem nada, que me consolou", contou Paquita, já no barco, com o Cumbre Vieja ao fundo. Desconcertante e imponente.

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