Reportagem

Comer fora no Porto. "Está a ver a vacina da covid aqui? Duas doses"

Comer fora no Porto. "Está a ver a vacina da covid aqui? Duas doses"

"Boa tarde. Quantas pessoas são? Têm todos o certificado de vacinação válido?". De telemóveis em punho, os clientes do famoso Café Santiago, na Baixa portuense, foram-se juntando à porta, a partir das 13 horas desta quarta-feira, e Rui Pereira, o proprietário, não teve mãos a medir. Com uma dificuldade acrescida: à hora do almoço, não era possível descarregar o certificado digital através da aplicação do SNS24.

A fazer as vezes de porteiro, o empresário ia verificando os documentos, um após o outro, enquanto geria também a disponibilidade de mesas. "Tenho dito que não a algumas pessoas [sem certificado]. Estamos a dizer que não ao nosso negócio. É que não vendemos só comida; vendemos um serviço e a nossa simpatia, e sentimos esta pressão, que nos deixa loucos", desabafa Rui Pereira, ao JN, contando que alguns clientes "reclamam" e outros tentam a "persuasão", pedindo autorização para entrar no restaurante mesmo sem comprovativo de vacinação para a covid.

"Tivemos de contratar uma pessoa para ver certificados"

"Tudo isto é muito constrangedor", lamenta o dono do Santiago, que se revela crítico da medida. "Acho que não deviam pensar só em fazer regras com efeito político, mas prático. A única coisa que estão a criar é aglomerados à porta, e não se justifica. A medida tem apenas o efeito prático de dificultar o trabalho, porque em termos da contenção da propagação não tem efeitos", sustenta.

"Agora, temos de ter sempre alguém à porta, a impedir a entrada; temos de ter aqui algum ativo fixo a fazer de fiscal", lastima o empresário portuense, à entrada do estabelecimento da Praça dos Poveiros, enquanto o restaurante do espaço Maus Hábitos, ali perto, teve de fazer uma contratação para o efeito. "Tivemos de contratar uma pessoa especificamente para ver certificados", indica Daniel Bessa, que gere o restaurante. À porta, uma funcionária ia verificando cada certificado, e a sala compunha-se com meia centena de pessoas.

"Se for só a certificação, a nível do restaurante não há problema, porque quase toda a gente está vacinada. É só a logística de as pessoas terem de esperar para entrar", aponta, referindo que a maior dificuldade é com a testagem obrigatória para a entrada nos concertos.

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Mostram boletim de vacinas

À porta do Santiago, um grupo de jovens estudantes enfrentava uma dificuldade: um dos colegas não tinha certificado e, sem conseguir através da aplicação, teria de fazer um teste para poder entrar e almoçar. O problema estava, porém, em encontrar uma farmácia onde realizar o teste. "Acho que é necessário, porque os casos estão a aumentar, mas é difícil arranjar uma farmácia onde fazer o teste", verificava Leandro Rodriguez, garantido que não deixaria sozinho o colega que não dispunha de certificado. Entretanto, foi possível chegar ao boletim de vacinas do jovem, através do site do SNS, e o grupo acabou por almoçar no Santiago. Tal como outro cliente, que não pôde aceder ao certificado devido às dificuldades técnicas com a aplicação mas conseguiu chegar ao boletim de vacinas. "Está a ver a vacina da covid aqui? Duas doses", mostrava, aliviado. E foi almoçar.

O mesmo não sucedeu com um casal que trabalha no Maus Hábitos, que teve de desistir do almoço que planearam num outro restaurante da Baixa e viram a entrada recusada por a mulher não conseguir chegar ao certificado digital através da aplicação do SNS24. "Tínhamos de ir comprar o teste, e não justificava. O trabalho era a dois passos, e preferimos vir cá ", contava William Queiroz, que tinha descarregado o certificado para o telemóvel. A mulher fizera o mesmo, mas, ao mudar de telemóvel, ficara sem o ficheiro, e não o descarregara para o novo aparelho.

"Há pessoas que se esquecem do telemóvel em casa, que não têm bateria... Ou acontece o que aconteceu agora, com o site em baixo", elenca Rui Pereira, exemplificando situações em que exibir o certificado digital se torna inviável.

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