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Internamentos e urgências em mínimos no primeiro ano de pandemia

Internamentos e urgências em mínimos no primeiro ano de pandemia

Valores mais baixos desde 1999, quando INE iniciou série com dados de produção no público e no privado. Só as consultas de Oncologia Médica e Psiquiatria registaram aumento em 2020. Cirurgias recuaram para níveis de 2008.

É a (re)confirmação do impacto do primeiro ano de pandemia na saúde dos portugueses. Concretamente dos doentes não covid que, como insistentemente alertaram ordens profissionais e sindicatos, viram a sua saúde adiada. Desde que o Instituto Nacional de Estatística (INE) iniciou a série com dados de atividade hospitalar nos setores público e privado, em 1999, que não havia registo de valores tão baixos quer de idas aos Serviços de Urgência quer de internamentos. As consultas externas, efeito da diminuição de referenciações pelos Cuidados de Saúde Primários, a braços com os doentes covid, caíram 12,7%. Enquanto as cirurgias recuaram para níveis de 2008. Com impactos diretos na mortalidade, num excesso de óbitos, em 2020, superior a 12 mil. As causas de morte, no entanto, como vinca o INE na publicação desta quarta-feira a propósito do Dia Mundial da Saúde, que amanhã se assinala, não são ainda conhecidas.

Analisando a procura pelos Serviços de Urgência - presentemente sob enorme pressão - o medo instalado, sobretudo na primeira vaga pandémica, fez com que 2020 fechasse com menos 2,4 milhões de atendimentos, numa quebra de 29,6% face a 2019. Analisando a série iniciada em 1999 é, de longe, o valor mais baixo, depois de em 2019 se ter registado um máximo de 8,2 milhões de atendimentos - um número, para os diretores de serviço, claramente excessivo. Os hospitais do setor público asseguraram 83,2% das idas à Urgência, realizando menos dois milhões de atendimentos (-29,2%). Nos privados, a procura caiu 31,7% face ao ano anterior, sendo o valor mais baixo desde 2014.

Analisando o tipo de urgência, a pediátrica, que responde por 15,6% do total de episódios, foi a que registou uma quebra mais expressiva, com os atendimentos, num total de 896 mil, a caírem 47,7% face a 2019. Já a urgência de adultos, que absorve 78% dos atendimentos, fechou com um decréscimo de 25% - menos 1,5 milhões.

Internamentos abaixo do milhão

No que aos internamentos concerne, 2020 termina com os valores mais baixos dos últimos 20 anos, fechando, pela primeira vez, abaixo do milhão. De acordo com os dados do INE, no ano em análise contabilizaram-se 987,2 mil internamentos, num total de 9,4 milhões de dias - menos 14,2% e 9,3%, respetivamente. Por natureza institucional, os hospitais públicos, que asseguraram 75% dos internamentos, registaram uma quebra superior à dos privados: -14,3% contra -13,6%. Por especialidade, apenas as Doenças Infeciosas mais do que duplicaram o número de internamentos, se bem que respondam por apenas 2% do total.

Quanto à duração média de internamento, a mesma aumentou 0,5 dias face a 2019. Se nos hospitais públicos a média passou para os nove dias, nos privados chegou aos 11 dias. Com as Unidades de Cuidados Intensivos a requererem mais tempo de internamento: UCI pediátricos nos 19,9 dias, adultos nos 15,5 e neonatais nos 14,3. Tempos só ultrapassados por psiquiatria, inflacionada pelos registos do setor privado. Isto porque, revela o INE, em 2020 o tempo médio de internamento em psiquiatria em todos os hospitais estava nos 84,1 dias, mas enquanto no público era de 22,5 dias, no privado era quase dez vezes superior, com um tempo médio de 216,8 dias.

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Menos 2,7 milhões de consultas

Ao nível da produção de consultas externas, os dados do INE confirmam o decréscimo já anunciado pelo setor, por via da quebra de referenciações pelos Cuidados de Saúde Primários. Em 2020, realizaram-se, no total dos dois setores, menos 2,7 milhões de consultas médicas em meio hospitalar (12,7% face a 2019). Analisando a série do INE, é o número mais baixo dos últimos seis anos. Com os hospitais privados a registarem um decréscimo bastante superior face ao público: 18,3% contra 9,3%. Sendo que quase dois terços das consultas externas tiveram lugar no público.

Por especialidade, apenas Oncologia Médica e Psiquiatria viram a produção aumentar - mais 3,6% e 1,7%, respetivamente. Em sentido inverso às consultas presenciais, as teleconsultas aumentaram 4,5 vezes. Mesmo assim, para um total de apenas 137 mil atos, 60% dos quais no privado.

Cirurgias recuam para níveis de 2008

Consequentemente, também o número de cirurgias caiu, com menos 858 mil atos cirúrgicos realizados, sendo o valor mais baixo desde 2008, com quebras de 17,7% no público e de 15,4% no privado. Oftalmologia, Cirurgia Geral e Ortopedia registaram as maiores reduções de produção - menos 47 mil, 33 mil e 28 mil cirurgias, respetivamente. Apenas no privado aumentaram as cirurgias de Ginecologia-Obstetrícia e de Cirurgia Cardiotorácica. Analisando a produção total, o público realizou 70% das cirurgias em bloco operatório, 84% das quais programadas. Já no privado, a atividade programada chegou aos 95%.

Menos dez milhões de análises clínicas

Os atos complementares de diagnóstico totalizaram os 162,6 milhões, menos 19,6 milhões, dos quais 73% no setor do Estado. Por tipo de ato, contam-se menos dez milhões de análises clínicas, menos 5,3 milhões atos complementares de Medicina Física e Reabilitação e menos 2,7 milhões de exames de Radiologia. Em sentido contrário, aumentaram os atos de Pneumologia no público e de Ginecologia no privado. No total, o setor público respondeu por 88% dos exames complementares de diagnóstico.

Mais médicos, mas menos nos hospitais

Numa análise aos recursos humanos, o número de médicos aumentou para os 57918, num rácio de 5,6 médicos inscritos na Ordem por mil habitantes (mais 0,2 médicos face a 2019). Deste total, 60% eram especialistas, com maior peso em Medicina Geral e Familiar, Pediatria, Medicina Interna e Anestesiologia. Os dados do INE mostram ainda que apesar do aumento do número de médicos, o seu peso nos hospitais recuou 0,6 pontos percentuais, sendo agora cerca de 46% o total de médicos a trabalhar numa unidade hospitalar. Uma tendência, sublinham, dos últimos 20 anos e que compara com os 58,2% registados no início deste século.

Do lados dos enfermeiros, em 2020 estavam inscritos na Ordem 77984 profissionais, destacando o gabinete de estatísticas nacional a "tendência de aumento anual de 2,9% que se tem verificado desde 2017". Depois da proporção de enfermeiros a trabalhar nos hospitais ter descido, "de forma generalizada, até 2014", atualmente são já 61,9%, num acréscimo de 2 pontos percentuais face a 2019.

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