Opinião

O caso das FP25 (continuação)

O caso das FP25 (continuação)

Em 4.2.1984, Otelo resume a reunião da DPM, na qual se debateu uma informação que a organização recebera sobre a preparação de uma acção policial e judiciária contra os elementos da organização.

Nessa reunião, decidiu-se o recuo dos elementos já identificados pela PJ - recuo, na linguagem terrorista, significava que aqueles elementos teriam de retirar-se das respectivas casas e vida social, escondendo-se em apartamentos ou residências desconhecidas, em lugar desconhecido. Os elementos que viessem a ser detidos, nos respectivos interrogatórios judiciais apenas se declarariam militantes da FUP (OPM). Foi ainda decidido que todos iriam eliminar os papéis e documentos reveladores da sua pertença a uma organização terrorista. Se bem que tenham cumprido, em Tribunal, o compromisso de se assumirem como militantes da FUP, não assim procederam à destruição dos documentos e papéis comprometedores. Desde Otelo às sedes da FUP, todos guardavam documentos extremamente elucidativos da violência programada e executada pelo Projecto Global/FP25. Com o cruzamento do conteúdo da informação assim recolhida, foi possível a investigação reconstituir todo o edifício terrorista, que tinha como objectivo final a tomada, pelas armas, do poder político democrático, então já instalado no país.

Numa outra reunião da DPM, resumida por Otelo nos seus cadernos, os elementos daquela decidiram ser útil e fundamental a organização conceder uma entrevista a um jornal diário, no sentido de defender os actos e actividades criminosas daquela e os seus objectivos estratégicos. Passados cerca de dois dias, é dada à estampa uma entrevista a um jornal, já extinto, com a insígnia e sob o lema das FP25, tratando exactamente os temas versados e aprovados naquela reunião da DPM. Otelo nunca assumiu que o Projecto Global e as FP25 eram uma mesma e única organização, acabando por revelar, apenas, que o seu Projecto Global fora infiltrado pelas FP25. No entanto, confrontado com a morte de um bebé em São Mansos, vítima de uma explosão que pretendia atingir o pai da criança, respondeu que fora um "incidente". Otelo nunca rejeitou qualquer crime cometido e reivindicado pelas FP25.

A organização terrorista Projecto Global/FP25 determinou e levou a cabo cerca de 17 homicídios, vários crimes de ofensas corporais graves e inúmeros assaltos armados. Todos os seus elementos actuaram sempre em nome e no interesse daquela, sabiam, queriam, determinavam, executavam e aceitavam os crimes cometidos no interesse estratégico daquela. Cada elemento tinha a sua função específica no interior da organização, os que a fundaram e os que a ela aderiram, mas todos sabiam, queriam e aceitavam a execução dos crimes já elencados, porque, no seu entendimento e querer, a violência, o medo e a instabilidade social e económica que infundiam na sociedade facilitaria o caminho à insurreição armada.

(continua)

*Ex-diretora do DCIAP

A autora escreve segundo a antiga ortografia

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