Opinião

A imprevisibilidade do modelo energético

A imprevisibilidade do modelo energético

A pandemia veio abalar a ideia de segurança, conforto, estabilidade e crescimento perpétuos que se enraizou nos países desenvolvidos. É verdade que o Mundo vive crises cíclicas e que, ao longo da História, não faltaram eventos pandémicos. Ainda assim, fomos surpreendidos por uma crise sanitária que nos fechou em casa, parou a economia, entupiu os hospitais e espalhou o medo.

Já se perspetiva o fim da crise sanitária, mas os seus efeitos perduram e continuam a gerar imprevisibilidade. A pandemia causou a rutura das cadeias de abastecimento mundiais, muito dependentes da China. As falhas no setor logístico estão a ter forte impacto na economia global, penalizando empresas e consumidores, sobretudo com a subida do preço da energia.

As sequelas da crise sanitária antecipam as dores de um desafio bem maior do que a própria pandemia: a transição energética. O movimento dos coletes amarelos, em França, foi o primeiro aviso de que a substituição dos combustíveis fósseis por energia verde vai gerar muita contestação. A tensão social tende a acentuar-se à medida que os custos da transição energética se tornarem ainda mais pesados para países, como o nosso, cuja economia e modo de vida estão muito dependentes dos combustíveis fósseis.

Sabemos que é inevitável a transição energética, mas ainda subsistem muitas dúvidas sobre o processo em si. Haverá capacidade de produção de energia verde no Mundo para suprir as necessidades de empresas e consumidores? A energia verde é, de facto, o futuro ou podemos esperar um mais rápido e menos dispendioso desenvolvimento de outras fontes de energia, como os combustíveis sintéticos? E a energia nuclear? Alguns países, como a França, estão a investir no nuclear para compensar as intermitências das renováveis.

O modelo energético é tudo menos previsível, circunstância que arrasta o Mundo para a instabilidade e faz avolumar as tensões sociais. O ocaso da pandemia não nos trará grandes certezas, fator decisivo para o desenvolvimento económico e social. Por ora, a única certeza é que temos de melhorar a eficiência energética e reduzir os consumos.

Reitor da Universidade do Porto

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